Cuiabá, Quarta-feira 17/10/2018

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15.01.2018 | 00h00

A maré feminista

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A glamorosa cerimônia do 75´ Globo de Ouro reuniu em Los Angeles, no primeiro domingo de 2018, artistas e profissionais da indústria cinematográfica para premiar as melhores produções do ano anterior para cinema e para TV. O Globo de Ouro é um evento marcante na agenda do poderoso mundo do entretenimento norte-americano, e costuma antecipar os vencedores do Oscar. Neste ano a cor preta foi predominante entre os participantes da comemoração, escolhida como forma de protesto contra a avalanche de denúncias de assédio sexual sofrido pelas mulheres em Hollywood. Vários homens demonstraram apoio à causa também decidiram vestir cores escuras, trazendo na lapela do paletó broches com a inscrição Time"s Up (O tempo acabou), o nome do movimento criado pelas atrizes para expor e combater agressão sexual.

No ano de 2017 ecoou por toda parte o clamor estridente de mulheres denunciando o desrespeito e o assédio sexual, não foi possível ignorá-lo. Os EUA estão no topo dessa revolução nos costumes, talvez a mais representativa desde a década de 1960 naquele país, pela quantidade de casos denunciados e pela enorme adesão por meio do movimento #metoo (#eutambém). A revista "Time" elegeu como Personalidade do Ano as mulheres que quebraram o silêncio sobre o assédio sexual que sofreram. No Brasil, o caso mais emblemático envolveu um conhecido ator de novelas acusado por uma colega figurinista de comportamentos para lá de abusivos em local de trabalho. O próprio Itamaraty, órgão responsável pelas relações internacionais do Brasil, decidiu criar comissões internas de prevenção e enfrentamento ao assédio e à discriminação após serem revelados vários casos em embaixadas e representações consulares em todo o mundo.

A percepção que se tem é que hoje as mulheres estão se unindo e denunciando casos de assédio com mais destemor do que antes. Por meio de campanhas, sobretudo na internet, as mulheres estão conquistando uma força que já está desequilibrando a estrutura de poder que sempre favoreceu aqueles que se utilizam da autoridade, prestígio ou influência para praticar o abuso. É certo que esse tipo de comportamento seguirá acontecendo, sobretudo em meio às mulheres que não possuem o privilégio de serem conscientes de seus direitos, pessoas em condição de maior desamparo, e que infelizmente são constrangidas a aceitar caladas esse tipo de violência. Há, no entanto, algo novo no ar, uma maré feminista que está trazendo consequências surpreendentes: as mulheres começaram a reivindicar sua voz no espaço público e a denunciar sistematicamente o assédio sexual a que são submetidas nesse espaço comum. Compreender melhor o momento histórico em que a mulher se encontra e as circunstâncias sociais do tempo presente é uma missão indispensável para o homem contemporâneo, que nesse caminho terá que se confrontar com alguns hábitos e costumes profundamente arraigados. Como observa a filósofa Amelia Valcárcel, "elas, as mulheres, mudaram, mas se depararam com eles, os homens, mantendo suas próprias e velhas regras".

A confiança entre homens e mulheres não deixará de existir diante da mudança interior de velhos e anacrônicos paradigmas de conduta. Quando em 1932, durante o governo de Getúlio Vargas, o voto feminino no Brasil foi assegurado após intensa campanha nacional pela conquista desse direito pelas mulheres, quebrou-se um paradigma firmemente estabelecido até então. Novas mudanças seguirão acontecendo nas relações de gênero e é preciso estar atento a esse movimento da sociedade. Para o homem, assimilar a mulher contemporânea e todo o seu singular universo de particularidades e idiossincrasias é uma tarefa e tanto, que certamente não implicará perda de valor cultural do "masculino". Aliás, esse exercício de compreensão da alteridade pode inclusive resultar em descobertas fascinantes, e até mesmo auxiliar no interminável processo de autoconhecimento que enfim contribuirá no relacionamento entre homem e mulher.

Daniel Almeida de Macedo é doutor em História Social pela USP e escreve neste espaço às segundas-feiras.

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