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03.02.2018 | 00h00

A vaia no avião

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Imagino que o leitor esteja familiarizado com a situação de viajar em avião comercial. Durante todo o tempo do voo, e nos procedimentos de embarque e desembarque, os passageiros são confinados em espaço restrito, geralmente em poltronas apertadas às quais estão atados por cintos de segurança. Nesse intervalo, compartilham seu destino com dezenas de desconhecidos, cuja única afinidade aparente foi a escolha do itinerário e horário. Some-se a isso circunstâncias perturbadoras como atrasos, turbulências e o estresse individual de cada viajante e tem-se um cenário potencial para múltiplas situações de conflito, a começar pela disputa de espaço no compartimento de bagagens.

Ao longo do tempo, as pessoas polidas foram desenvolvendo padrões de comportamento para tornar tal convivência suportável. Por exemplo: a proibição de fumar a bordo ou a utilização de fones de ouvido para que as preferências musicais de um não atrapalhem o sono dos outros. Assim, busca-se respeitar a privacidade dos demais passageiros, com base no princípio de não fazer a outrem o que não se quer que nos façam.

Episódios recentes parecem indicar que a prolongada crise econômica, política e ética que o país atravessa está provocando um retrocesso civilizatório em certos segmentos. Tempos atrás, num voo Brasília-Rio de Janeiro, uma conhecida jornalista foi duramente hostilizada por militantes partidários que retornavam de uma convenção e julgaram que xingamentos eram a forma mais inteligente de expressar seu descontentamento com as críticas que a jornalista fazia à política econômica então praticada. Em outra ocasião, parlamentares foram vítimas de apupos e acusações de cumplicidade com crimes praticados por seus correligionários. Há poucos dias, um magistrado, ministro do STF, foi submetido a constrangimento moral em voo Brasília-Cuiabá.

Considero todas essas manifestações grosseiras, covardes e intolerantes. Grosseiras, porque agridem a privacidade da pessoa; covardes, porque perpetradas por bandos contra indivíduos; intolerantes, porque vomitam slogans e ofensas contra alguém de cujo posicionamento discordam. Um elemento agravante nesses casos e houve outros, semelhantes, em restaurantes, cinemas etc. é que os agressores se comprazem em divulgar a própria incivilidade filmando-a e multiplicando-a por meio de redes sociais.

Quando expressei essa minha crítica num círculo restrito, composto majoritariamente por magistrados de contas, fui surpreendido com as teses de que "a vaia é um direito do povo" ou que "Fulano ou Fulana fizeram por merecer".

Ora, não interessa se o personagem em questão é um ex-governador corrupto confesso ou um ex-presidente condenado por corrupção. Não interessa se é um parlamentar omisso, um juiz polêmico, um repórter tendencioso, um artista sem talento ou um atleta responsável pela derrota de sua equipe. Não cabe a ninguém o direito ao justiçamento público com agressões físicas ou verbais. Isso não é democracia. Isso só alimenta uma espiral de ódio e em nada contribui para solucionar os problemas do país ou do povo, que, aliás, não é representado por passageiros de avião ou fregueses de restaurante.

Há dois anos escrevi um artigo condenando episódios em que foram vaiados a então presidente da República e o governador de São Paulo. Na ocasião sustentei que a vaia, como a pichação, se justifica nas ditaduras, quando não há possibilidade de debate ou crítica. A vaia é tolerada em competições esportivas quando um atleta atua com deslealdade ou o árbitro comete um erro flagrante. Mas a democracia não admite a violência como arma política. E a vaia é uma violência, não física, mas moral, que agride e fere tanto quanto um tabefe. A vaia tem DNA autoritário, inviabiliza o diálogo, tumultua o debate e estimula a radicalização inconsequente.

Precisamos vaiar menos e dialogar mais, formulando, quando necessário, críticas públicas a quaisquer autoridades ou personalidades, sem refugiarmo-nos no anonimato covarde.

E, se possível, voemos tranquilos.

Luiz Henrique Lima é Conselheiro Substituto do TCE-MT.

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