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20.11.2017 | 00h00

Consciência negra

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Hoje é celebrado o Dia da Consciência Negra. A data comemorativa propõe uma reflexão sobre a importância da cultura e da história do negro no Brasil, bem como estimula a identificação e o reconhecimento do preconceito racial que permeia a sociedade brasileira.

Esse ano a efeméride é comemorada justamente no momento em que o tema da discriminação racial é discutido de forma intensa pela sociedade, perplexa como as recentes manifestações de preconceito verbalizadas por um jornalista em rede nacional de televisão. Em oposição a posturas discriminatórias como esta, ampliam-se as ações públicas voltadas à promoção da igualdade racial e inclusão social dos brasileiros afrodescendentes. São estratégias importantes na luta da comunidade negra em favor do reconhecimento de sua cultura e cidadania.

Nesse sentido, a inserção da história e da cultura afro-brasileira nos currículos da Educação básica e superior, por meio da promulgação das leis 10.639, de 2003 e 11.645 de 2008, representa um momento histórico singular e de crucial importância para o ensino da diversidade cultural no Brasil. Não se trata apenas de buscar valorizar a cultura do povo afrodescendente, e, assim, reparar os prejuízos que se repetem há séculos a sua identidade e aos seus direitos. A história da comunidade negra no Brasil é manchada pela experiência desumana da escravidão, mas é também uma incrível e emocionante trajetória épica de conquistas e triunfo. É igualmente primordial resgatar esses aspectos de sua narrativa histórica, ou seja, destacar referências que contam algo sobre o valor e a bravura dos negros e seus descendentes. Conhecer as origens e a história da cultura afro-brasileira significa se surpreender com a heroica marcha de uma nação em meio a lutas e sofrimento, uma verdadeira saga que descreve a vitória da resistência sobre a insensatez humana. E o brasileiro tem a honra e o privilégio de se perceber como derivação dessa grandiosa odisseia.

No Brasil, todavia, predomina um imaginário étnico-racial que privilegia a brancura e valoriza principalmente as raízes europeias da nossa cultura. É importante abrir espaço para novas possibilidades indentitárias, questionar alguns paradigmas fortemente arraigados e buscar na história afro-brasileira elementos que estão além do estigma da escravidão. É surpreendente observar como é comum entre nós não enxergarmos a beleza da cultura afro-brasileira. Muitas vezes é necessário que um estrangeiro revele e traduza a força dessa arte. Esse é o caso do pintor argentino Carybé, que apaixonado pela cultura baiana, produziu um radiante e variado acervo de obras plásticas que apresentam a exuberante estética afro-brasileira. Já o fotógrafo e etnólogo francês Pierre Verger, atraído pela leitura de um livro de Jorge Amado, desembarcou na Bahia em 1946 para ficar alguns meses e permaneceu por toda a vida, registando imagens icônicas do cotidiano baiano, um dia-a-dia fortemente influenciado pela cultura africana. O próprio escritor Jorge Amado considerava Verger "o mais baiano dos baianos".

A cultura e as tradições de origem africana estão em toda parte. Misturadas com a cultura forte e diferente dos indígenas que já estavam aqui, e recombinada com as idiossincrasias dos migrantes europeus, surge a identidade do brasileiro comum. É certo que alguns (ou muitos) brasileiros rejeitam mentalmente essa matriz étnica e cultural. Nesse sentido, as manifestações racistas seriam uma forma se afirmar como não pertencente a essa identidade nacional. Causa muita decepção escutar expressões preconceituosas vindas de adultos, especialmente quando há tanto a se orgulhar da composição étnica da população brasileira. Muito pior, no entanto, é quando crianças passam a se portar como esses adultos. Assim, além de expor os atos de racismo, é importante acabar com o modo reduzido de tratar a contribuição dos africanos escravizados e de seus descendentes para a construção da nação brasileira. Afinal, a comemoração do Dia Consciência Negra é um convite à reflexão altiva sobre a origem dos costumes, das tradições e das influências que formam a cultura do povo brasileiro.

Daniel Almeida de Macedo é Doutor em História Social pela USP

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