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16.01.2018 | 00h00

O nosso guia e o mito

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O povo tem suficiente informação na imprensa e nas redes sociais para separar os bons candidatos dos maus, mas insiste sempre em rejeitar os íntegros e manter os imprestáveis. Descarta o zape e retém o quatro.

Os políticos que lideram as intenções de voto em 2018 têm tantos delitos comprovados e tantos comportamentos indesejados divulgados todos os dias, que é impossível desconhecê-los. Entretanto mesmo assim os eleitores os escolhem.

Um deles, grotesco e vulgar, parlamentar do baixo clero a despeito de estar na Câmara há mais de 20 anos, parece não ter condições de governar, principalmente pela cintura dura e arrogância cultivadas durante anos na caserna. O outro tem muito molejo, tanto que se adaptou perfeitamente à política, incorporando todas as malandragens possíveis em 30 anos de vida pública.

Ambos têm seguidores fiéis que não demonstram o menor interesse em saber de fatos negativos da vida passada de seus escolhidos.

Contra argumentos as provas não resistem. Mesmo com o testemunho de dezenas de pessoas, de muitos donos de empresas e de farto material irrefutável, os eleitores do primeiro fingem que ele não cometeu qualquer crime. Garantem que há um conchavo da direita para impedir sua candidatura.

Também do outro lado as provas são desprezadas em favor dos argumentos. Declarações gravadas e dados tirados de registros oficiais não são suficientes para mostrar a truculência do candidato militar, que os súditos chamam de mito.

O povo tem essa capacidade de optar pelos piores porque a nobreza é silenciosa e o vício barulhento, por isso convence mais. Também porque os inescrupulosos estão dispostos a usar a astúcia fraudulenta para seduzir os que buscam um redentor.

Quando a democracia foi inventada, com certeza seus criadores não esperavam que ela se transformasse neste modelo disfuncional que conhecemos hoje.

Era muito mais prática. Algumas pessoas que se julgavam aptas para gerenciar uma cidade se dispunham a gastar tempo e esforço para cuidar do bem público. Sem grandes "ideologias", creio eu, pois esse carimbo deve ter surgido depois como recurso de convencimento quando a política passou a ser um meio de vida e forma de acumular poder, fama e riqueza.

Não se pretende aqui idealizar o passado afirmando que no seu início a democracia era melhor que hoje. Em algumas coisas certamente não era, tanto que somente cerca de 10% da população votava. Os outros, por serem estrangeiros, escravos ou mulheres não opinavam nas escolhas.

Mas por certo naquele início remoto (mais ou menos 500 anos a.C) não se esperava que um grupo de pessoas, na maioria piores que a média da população, "grilasse" esse feudo e dele se tornasse dono, legitimado pelo voto popular.

Reafirmo minha desesperança na democracia tal qual é hoje. Prevejo, para confirmar minha descrença, que o Congresso Nacional manterá, nestas eleições, o nível de renovação costumeiro, a despeito de todos os fatos obscenos que a Lava Jato revelou.

Renato de Paiva Pereira é empresário e escritor. E-mail: renato@hotelgranodara.com.br

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