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10.11.2017 | 00h00

Racismo e gracejo

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A opinião pública entrou em alvoroço com a divulgação de um vídeo em que o apresentador da Rede Globo, William Waack, aparece fora do ar conversando com um entrevistado, em 2016, durante a cobertura das eleições norte-americanas. Em determinado momento, o som de uma buzina estridente invade o estúdio e o apresentador esbraveja, falando alguns palavrões. Em seguida, sussurra algo como "é coisa de preto" e solta gargalhadas. Como não poderia ficar inerte à tempestade iniciada nas redes sociais, a Globo decidiu afastar o jornalista enquanto apura melhor o episódio. Disse não compactuar com o racismo, adotando o mesmo expediente em relação ao assédio sexual cometido pelo ator José Mayer contra uma figurinista. Pessoas que acompanham melhor os bastidores da televisão entendem que o vazamento do vídeo foi uma estratégia muito bem pensada para destruir a carreira do famoso apresentador, uma vez que não deixou rastros, pois a emissora apaga de seus arquivos relatórios sobre edição a cada 6 ou 12 meses. Waack não é tido como uma pessoa simpática por quem trabalha com ele, mas isso é uma discussão para os sites de fofoca. A questão que se levanta é simples: o comentário "isso é coisa de preto" é uma observação racista?, apenas um gracejo, como escreveu o jornalista Reinaldo Azevedo?, é possível dissociar um gracejo de uma prática verbal indubitavelmente racista? O episódio serviu para que todos, inclusive os radicais fundamentalistas da internet, pudessem refletir sobre seus conceitos e pré-conceitos e sobre aquilo que culturalmente absorvemos a vida toda.

Em defesa de Waack, Reinaldo Azevedo disse que o apelido dele é "alemão" e que em seu sangue há mistura de árabe e possivelmente também de "pretos" e nem por isso a questão étnica tem que ser compreendida de forma pejorativa. Por este raciocínio, não há problema algum chamar um oriental de "japa", por exemplo, pois realmente não é ofensivo. Mas o que é preciso separar é a expressão, típica do brasileiro de espírito livre e bem-humorado, que faz piada com tudo, de posições que reproduzimos automaticamente, mas que depreciam determinadas raças e credos. Toda vez que alguém diz que tal ato é "coisa de preto", geralmente se faz referência a alguma falha, deslize ou coisa malfeita. Assim como costuma se fazer graça de baianos e sua pretensa indolência (preguiça) e de nordestinos de uma forma geral, considerados menos instruídos e menos civilizados do que sulistas. Historicamente ouvimos isso na escola, em nossa própria casa, em roda da amigos e achamos natural enxergarmos a questão sem o peso de uma ofensa. Passamos adiante sem questionar nossas convicções e valores culturais. Quando um "coisa de preto" surge na boca de uma pessoa famosa e é visto por milhões de pessoas, começamos a entender - ou, ao menos refletir - sobre limites. De que forma um "gracejo" deste tipo dito numa mesa de bar repercutiria na mídia? As reações à fala infeliz do jornalista renomado podem ensejar os mais diversos tipos de manifestações, mas não causam estranhamento. Porque todos nós já ouvimos ou falamos uma expressão semelhante em algum momento da vida. Mas nunca paramos para pensar nisso.

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