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23.01.2018 | 00h00

Riqueza e ideologia

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Um assunto incômodo deve ser abordado, ainda que de forma apenas protocolar, no Fórum Econômico Mundial, que começa hoje em Davos, na Suíça. Trata-se da concentração desigual de renda no globo. E por que um tema que gera tanto debate e desconforto seria abordado com superficialidade? Simples, porque tudo o que se fala a respeito disso fica restrito ao campo ideológico, sem gerar nenhuma mudança significativa ou efeito prático. Dados da ONG britânica Oxfam, que vai participar do Fórum, apontam que o número de bilionários no Brasil aumentou de 31 para 42 em 2017. E que este seletíssimo grupo, que encheria um ônibus, tem mais dinheiro do que metade da população brasileira. A metade mais pobre, obviamente, já que dados ampliados do IBGE apontam que 52% dos brasileiros vivem abaixo da linha da pobreza. Em todo o mundo, a faixa dos 1% mais ricos ficou com 82% de toda riqueza produzida no ano passado, enquanto que a metade mais pobre - cerca de 3,7 bilhões de pessoas, não ficou com absolutamente nada. Falar de concentração de renda, embora esses dados sejam chocantes, é uma tarefa ingrata. Mais do que isso.

É ter certeza de que você corre o risco de ser xingado nas redes sociais. Acostumou-se a politizar o tema, que invariavelmente surge junto do mesmo pacote onde estão a meritocracia, o capitalismo, os esquerdistas, a hipocrisia, os liberais e os radicais de extrema direita. Não é permitido defender que um alto executivo ou um acionista tenha uma margem menos surreal de lucro. E que, de forma direta ou indireta, alguma parcela da população está sendo usada para que a roda do mercado financeiro continue a girar apenas para um lado. A questão é frequentemente prejudicada por interpretações equivocadas. Não se quer criminalizar o trabalho do empreendedor ou do empresário que gera emprego e ajuda a sustentar a economia, mas mostrar que não pode ser natural milhões de pessoas viverem à beira da morte por fome enquanto um punhado de gente guarda quase toda a riqueza do mundo no banco. O estudo tenta apontar alguns caminhos para que o abismo diminua, entre os quais, um sistema de freios para a remuneração de determinados cargos e funções. E também democratizar a distribuição de lucros, ao passo que a cobrança de impostos deveria pesar mais sobre os bilionários.

Em tese, haveria melhores condições de oferecer serviços públicos de qualidade, como saúde e educação, fundamentais para o desenvolvimento de qualquer pessoa. Essas recomendações são feitas apenas porque é necessário haver alguma análise sobre o problema, mas mesmo os autores da pesquisa sabem que é utopia esperar que haja alguma alteração neste jogo em que quase ninguém ganha. No Brasil, arrecadação de impostos não quer dizer absolutamente nada em termos de evolução social. Na esfera privada, o mercado segue regras próprias, com pouca regulação, enquanto que na esfera pública convive-se com desacertos administrativos e com o monstro indomável da corrupção. Independentemente de ideologias políticas, qualquer ser humano aspira ao seu bem-estar e sonha em viver num mundo mais justo. E certamente não é o caso do Planeta Terra.

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