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13.11.2017 | 00h00

Tecnologia e individualidade

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É realmente difícil não se entusiasmar com as empresas de tecnologia e suas invenções que muitas vezes tornam a vida muito mais fácil e divertida. Google, Apple, Facebook e Amazon, que os europeus começaram a chamar GAFA, atualmente disputam uma corrida para definir qual empresa, afinal, fornecerá o serviço de "assistente pessoal", uma espécie de inteligência artificial incumbida de acordar as pessoas e guiá-las e durante todo o tempo, sem nunca deixar de estar presente. Uma proposta que, apresentada dessa forma, pode parecer demasiadamente invasiva, mas as pessoas e seus smartphones que funcionam quase como um prolongamento de sua persona já não estariam a um passo de um implante tecnológico definitivo?

É possível e até provável que sim. A sociedade estaria rumando em direção a uma realidade híbrida, na qual a tecnologia desempenha várias funções humanas, inclusive a tarefa de pensar e decidir. Mas mesmo antes que esse delírio tecnológico se efetive, já é possível perceber a inquietação causada pela sensação que as pessoas estão gradualmente perdendo - ou transferindo parcelas características de sua natureza humana. O primeiro atributo humano que parece estar se desintegrando nesse processo é a individualidade. As grandes empresas de tecnologia enxergam as pessoas fundamentalmente como seres sociais, ou seja, a existência humana seria intrinsecamente coletiva. Como possui clientes na casa dos milhões, os quais conhece muito bem por meio do acesso a uma quantidade infindável de dados adquiridos ao acompanhar a sua navegação on-line, a GAFA tem o poder de influenciar os indivíduos a se comportar segundo uma "mentalidade de manada", e induzi-los a reagir todos de uma mesma forma diante dos estímulos de consumo criados.

Isso é não é difícil de perceber, já que os aspectos mais valiosos e privados da vida de cada um estão migrando para gigantescas plataformas digitais - Big Data - onde são analisadas com o objetivo de se extrair padrões e tendências. Na sociedade da hiper-exposição, calendários, agendas, fotografias, pensamentos e documentos pessoais já não faz parte do acervo privado das pessoas, mas integram o repositório de dados em poder das empresas de tecnologia que esquadrinham o universo íntimo de todos para modelar (customizar) os produtos e serviços a serem oferecidos. O robô sonda a psique de cada internauta mapeando clicks e visualizações, em uma fração de minuto compreende como pensa e sente o seu possível cliente e em seguida oferece o produto. É uma operação precisa, rápida e que se comunica com as estratégias publicitárias, o que torna as ofertas fascinantes.

Parece haver, no entanto, um descompasso nesse processo de consumo. O individualismo que se expressa na vontade livre e própria de decidir, encontra uma certa resistência imposta pelas empresas de tecnologia que automatizam cada vez mais as escolhas. São os algoritmos que propõem as notícias a serem lidas, oferecem os artigos a serem adquiridos e o itinerário para o deslocamento de carro. É certo que esse assessoramento tecnológico pode parecer interessante, pois torna a vida mais fácil, mas essa simplificação do cotidiano oculta a intenção de se suprimir a liberdade de decidir, que reduz drasticamente a autonomia das pessoas. Há um dirigismo ínsito nesse anseio de criar uma inteligência artificial à qual se passará a recorrer quase que instintivamente no momento em que for necessário decidir sobre algo.

O tempo de deslumbramento com as inovações digitais já passou. Há que diminuir o passo, olhar ao redor e perceber a incrível parcela de liberdade que já foi abdicada em função de um estilo de vida que se conforma com aquilo que os monopólios da indústria tecnológica gentilmente oferecem. Afinal, unanimidades escondem grandes vícios e sociedades homogêneas são entediantes. Nem todos precisam julgar irresistível o último modelo de um smartphone da moda. Passar a noite em um fila em frente à porta da loja esperando para ser recepcionado em festa pelos vendedores e ser o primeiro a adquirir o telefone não pode ser considerado um sinal de bom gosto.

Daniel Almeida de Macedo é Doutor em História Social pela USP

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