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21.08.2019 | 11h07

A arte de curar pela arte

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Oscar D'Ambrosio

Divulgação

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A arte e a medicina têm bem mais fronteiras do que se pode pensar numa analogia apressada e bem menos do que permite uma leitura superficial dessas duas atividades. Pela sua abrangência, ambas tendem a ser vistas de forma reducionista – e isso não é bom para nenhuma delas.

 

Derivada do latim ars medicina, Medicina significa a arte da cura. Nas suas vertentes mais modernas, é considerada uma área do conhecimento humano ligada à manutenção e restauração da saúde, estando indissoluvelmente ligada à prevenção de doenças. 

 

Nesse sentido, é cada vez mais multi e interdisciplinar. Trabalha com estudos, diagnósticos e tratamentos em busca do completo bem-estar físico, mental e social do indivíduo. É claro que nessa visão ampla a arte não pode ser deixada de lado justamente pela sua abrangência. 

 

Afinal, o próprio termo latino ars significa técnica ou habilidade – e está relacionado, é claro, à estética. Isso significa, por exemplo, discutir o que é o belo, algo essencialmente mutável e ligado a determinados momentos históricos e a complexos processos sócio-culturais. 

 

O artista-médico e o médico-artista são facetas diferentes de uma mesma unidade, caracterizada pelo uso do conhecimento (ars) para desenvolver uma habilidade. No primeiro caso, cura almas pela forma como manuseia pincéis ou outros recursos plásticos; no segundo, exercita seu saber técnico com a sensibilidade de um criador. 

 

Essa ambiguidade está genialmente presente no mito do imortal centauro Quirão. Conta a milenar sabedoria grega que ele é o fruto do amor entre Crono, transformado em cavalo para escapar dos olhares ciumentos da esposa Réia, e a oceânide Fílira. Por isso, nasceu com o corpo de um equino e com cabeça de homem. 

 

Ser filho de Cronos, o próprio tempo, lhe permitiu ter um amplo saber que incluía o domínio das artes, da guerra e da caça, da adivinhação, da equitação, da música e da ética. Isso o levou a ser um mestre de heróis como Jasão, Asclépio, Peleu, Aquiles e os Dióscuros Castor e Pólux, entre outros.

 

Sua relação com a Medicina começa no instante em que foi ferido acidentalmente por uma flecha envenenada, disparada por Hércules e dirigida ao centauro Élato. Após atravessar o coração do inimigo, ela feriu Quirão para sempre. Em vão, ele tentou se curar com unguentos e outros recursos.

 

Por sentir todas as dores do mundo, Quirão, o eternamente ferido, tornou-se o melhor dos médicos. Ao comportar os sofrimentos, entendia o drama de cada paciente de uma maneira única. Não suportando mais esse peso eterno, troca sua imortalidade pela mortalidade do titã Prometeu, podendo, assim, descansar em outro plano, como a constelação de Sagitário.

 

É com a força de seu poder de cura que Quirão transforma seu lado animal, abaixo da cintura, em espiritual. Analogamente, o artista-médico e o médico-artista podem – e devem –, ao longo de suas carreiras, fazer o mesmo. 

 

Um bom trabalho plástico de um médico e um medicinal efeito na alma de um paciente gerado por um artista visual levam ao mesmo objetivo: o da cura de corpos e almas em busca da harmonia dos seres viventes com eles mesmos e com o mundo que os cerca.

 

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.  

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