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27.02.2018 | 00h00

A esperteza do Temer

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A intervenção federal no Rio de Janeiro foi uma providência necessária, validada por cerca de 80% dos parlamentares na Câmara e no Senado. Mas não é o tamanho do apoio político que atesta sua virtude, pois os ilustres deputados e senadores só a aprovaram porque viram aí uma oportunidade de deixarem uma batalha impopular como a da Previdência, para abraçar outra que o povo aprova, portanto rende voto. Como o PSOL, PCdoB e PT votaram em peso contra a intervenção, há mais uma razão para acreditar que ela (a intervenção) está no rumo certo.

Entretanto necessidade é uma coisa, oportunidade outra. O Rio de Janeiro está em franco processo de deterioração da segurança pública há muito tempo. Contudo não houve aumento repentino dos crimes neste começo de ano que justificasse a urgência da intervenção. Dados divulgados há poucos dias mostraram que em outros carnavais as ocorrências policiais foram numericamente semelhantes e que em 2015 e 2016 elas foram maiores que as de 2018. A doença carioca embora progressiva, grave e crônica, não apresenta sinais de agravamento repentino.

A instantânea aceitação pelo Governo Federal das demandas do Rio de Janeiro mostra que "nesse mato tem coelho". Parece muito mais um oportunismo do Presidente e de seus ministros a decisão de incorporar de pronto a urgência do governador fluminense. Raposas velhas da política como Temer, Franco Montoro e Eliseu Padilha que estavam convencidos de que a reforma da Previdência não teria votos suficientes para ser aprovada, descobriram uma saída honrosa da arapuca em que se meteram, sem o desgaste que a derrota provocaria. Como a lei proíbe qualquer reforma constitucional durante a vigência de Intervenção Federal, a PEC da Previdência sai de cena para alívio do governo e também do parlamento.

A intervenção é necessária, mas poderia muito bem esperar mais uma semana ou dez dias para ser decretada se houvesse interesse do governo em votar antes a Proposta de Emenda Constitucional.

Já escrevi neste espaço que a reforma da Previdência está tão desfigurada e desidratada que seria melhor abandoná-la para que seja retomada em governos futuros. Quando a água já estiver no nariz as pessoas vão entender que ela é inevitável, mas aí o conserto custa mais caro.

O Temer, após a gravação da JBS gastou o que tinha e o que não tinha de dinheiro público e capital político, para se livrar do impeachment. Não sobrou prestígio, nem dinheiro, muito menos cargos no governo a serem oferecidas aos políticos em troca da aprovação da reforma.

O Presidente, Moreira Franco, Rodrigo Maia, Eliseu Padilha e a maioria dos deputados; menos os do PT, PSOL e PCdoB, claro; estão eufóricos embrulhados nessa benvinda nova bandeira e aliviados com engavetando definitivo da PEC da Previdência. Por certo eles sabem de sua urgência, mas consideram que não compensa arriscar alguns votos para equilibrar as contas públicas.

Mas como a "esperteza, quando é muita, vira bicho e come o dono" é bom esperar o próximo lance, que como sempre, define o anterior: se as raposas tiverem sucesso na empreitada, a aprovação do governo poderá melhorar; não a ponto de reeleger o presidente, claro. Entretanto, se o povo perceber que a manobra tinha por fim a reeleição, o Temer pode ir para o lixo da história. A mão ao Pezão (desculpem o trocadilho) pode liquidar a vida política do presidente.

Renato de Paiva Pereira é empresário e escritor

Contato:renato@hotelgranodara.com.br

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