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12.08.2019 | 10h36

Evidência

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Roberta D'Albuquerque

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O pós-festa fez vários vídeos circularem no grupo.  E alguns momentos foram mesmo dignos de registro. As crianças ora impressionaram com a escolha sofistifada de repertório, ora pronunciaram o impronunciável em um pop rasgado que, se de uma lado estava na ponta da língua deles todos, de outro fazia visita inaugural ao ouvido dos pais. Teve dueto de pai e padrasto, de colegas pouco chegados, de melhores amigos. Teve coro de Evidências, de Bohemian Rhapsody, de qualquer uma e quase todas do Lulu Santos, teve de tudo.  

 

Era um aniversário de onze anos, em um karaoquê. E um karaoquê se presta, de imediato, a uma divisão do grupo. Há, obviamente, os extrovertidos que estão sempre na fila para a próxima performance, os introvertidos carismáticos que se esforçam para cantar ao menos uma, o desenvolto de ocasião que, embora mantenha o corpo imóvel, aproveita o momento para dar sinais que seu talento, o descontraído que canta e se diverte quando convocado para qualquer dueto, mas não escolhe nenhuma música para um solo, a revelação da noite, ninguém esperava nada dele, mas surpreende a todos, os que não cantam ao microfone, mas se soltam dançando e repetindo o refrão dos outros e, por fim, os que preferem não se envolver em cantoria nenhuma.   

 

Gosto de pensar que faço parte do penúltimo grupo. Qual é o problema de não chegar ao microfone, se canto alto e danço entregue por uma noite inteira. Sou platéia ativa, certo? O pós-festa fez vários vídeos circularem no grupo. E alguns momentos foram mesmo dignos de registro. Lembra? Pois é, nos registros do real, entendi que o que chamo de dança entregue é um bater ritmado de pés e dedinhos que não se separam da altura da mesa. Sim, mesa e cadeira. Pés e dedinhos de um corpo que permanece sentado. O que chamo de canto alto é no máximo um balbuciar de boca pouquíssimo aberta. Evidências. Pensei sobre elas hoje cedo e não pude deixar de me divertir. 

 

Postos em perspectiva, este canto e esta dança, que, ali no vídeo, pareciam quase nada, foram tanto. Que interessante pensar em como nos imaginamos de dentro para fora e como nos vemos de fora para dentro, não é? Não registramos o nosso todo, nunca. Nem mesmo naquela tentativa de se ouvir no áudio do whatsapp que acabou de ser enviado (vocês também fazem isso?). Somos mais do que é possível avistar. Que bom. Boa semana queridos.

 

Roberta D'Albuquerque é psicanalista, atende em seu consultório em São Paulo e escreve semanalmente no Gazeta Digital e em outros 17 jornais e revistas do Brasil, EUA e Canadá. E-mail: contato@robertadalbuquerque.com.br   

 

Coluna semanal atualizada às segundas-feiras.

 

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