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14.05.2018 | 00h00

Paz na península coreana

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No final do mês de abril ocorreu um evento extremamente significativo para a geopolítica mundial. Os presidentes da Coreia do Sul, Moon Jae-in, e seu homólogo norte-coreano, Kim Jong-un encontraram-se pessoalmente e celebraram um acordo que prevê a "completa desnuclearização" da península coreana.

É realmente surpreendente o novo posicionamento político das duas nações, que por muito tempo foram arqui-inimigas. Há menos de um ano a Coreia do Norte realizava testes nucleares com mísseis intercontinentais e os Estados Unidos e a Coreia do Sul executavam manobras de guerra em mares da Ásia Oriental. A relação diplomática entre esses países esteve muito deteriorada, apenas alguns meses atrás. Muitos se recordam da estranha e ameaçadora troca de tweets ocorrida em janeiro, entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump e o líder da Coreia do Norte, em que ambos se vangloriam de ter acesso direto a um certo "botão nuclear", e que poderiam utilizá-lo a qualquer momento. O anúncio feito por Kim Jong-un de que já não faria mais testes nucleares, portanto, muda completamente o panorama geopolítico de meses atrás. Os primeiros passos para essa inflexão nas relações entre Pyongyang e Seoul foram os Jogos Olímpicos de Inverno, que permitiram a reaproximação das Coreias por meio da unificação das equipes desportivas, que inclusive desfilaram em conjunto na cerimônia de abertura.

Esse rápido giro de 180 graus nas relações norte-sul coreanas, argumentam os especialistas, foi motivado, principalmente, pelo desejo de desenvolver a economia norte-coreana. Se por um lado Trump alertava que poderia devastar a Coreia do Norte com um ataque militar, a China, por sua vez, começou a aplicar multas comerciais com maior seriedade. Ao fazer concessões em seu programa nuclear, Kim Jong-un não somente reduzirá o embargo internacional, mas poderá obter mais ajuda humanitária e intercâmbios culturais, e até mesmo reforçar o turismo em seu país. Para o professor de Estudos Norte-coreanos na Universidade Kookmin, Andrei Lankov, Kim Jong-un parece se interessar pela estratégia utilizada por Deng Xiaoping nos anos 80 para desenvolver a economia na China, isto é, misturar o rígido controle político e a abertura econômica para receber investimentos estrangeiros. Resta saber se esse plano, que aparentemente foi bem-sucedido na China, dará bons resultados na Coreia do Norte.

A celebração da paz na península coreana teria, portanto, um sentido econômico e pragmático para Kim Jong-un. Lankov pondera, no entanto, que o líder norte coreano não irá se desfazer de forma definitiva - como exigem os Estados Unidos - de seu armamento nuclear, afinal, além do desenvolvimento econômico, o presidente norte-coreano também quer garantias de sobrevivência de seu regime, de seu Estado e de si próprio.

Uma possibilidade, segundo analistas, é que Pyongyang proponha se desfazer de parte de seu arsenal, ou mesmo congelar seu programa nuclear. Uma solução que permitiria manter a distensão e "com a qual o mundo poderia conviver". Em qualquer caso, o momento atual é alvissareiro e abre uma grande oportunidade para a normalização das relações na península coreana. Mas mesmo assim, a aproximação das Coreias é apenas um primeiro passo em um complexo processo que precisará, logo adiante, do endosso da China e dos EUA. Se o compromisso pela paz for enfim selado, ele representará uma admirável conquista diplomática de nosso tempo.

Daniel Almeida de Macedo é doutor em História Social pela USP e escreve neste espaço às segundas-feiras

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