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16.07.2019 | 11h23

Previdência: mentira repetida mil vezes

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Fernando Viana

Divulgação

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Quando tinha meus 16 anos de idade, comecei a estudar as relações de poder nas aulas de Sociologia e História e passei a questionar muita coisa. Lembro-me que contestei a forma como um apresentador de TV divulgou os dados sobre a privatização da Vale do Rio Doce e meu pai logo me corrigiu:

 

 — “ Você não tem jeito né Fernando, agora vai questionar até o que o homem do jornal tá falando? Menino não tem juízo mesmo”. 

 

A ideia de divulgar meias verdades ou mentiras em meios de comunicação de massa não é nova, ela faz parte das estratégias políticas do início do século XX. As novidades do nosso século são as redes sociais e a rapidez com que grupos são formados e fazem circular meias verdades, causando insegurança sobre em quê acreditar. E com tanta fake news, na hora que a verdade é dita ninguém sabe se é verdade mesmo. Assim como na fábula de Esopo, quando alguém grita que viu um lobo e sai correndo, muitos não acreditam, afinal de contas, já gritaram tantas coisas que não era verdade, vai saber...não é mesmo?     

 

Paul Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, dizia que uma mentira dita mil vezes tornava-se verdade, essa era uma arma da propagando do governo e nos parece que ainda é. Porém, há algo ainda mais forte na distorção da verdade que é sua completa relativização. Além da banalização da ideia que “tudo é relativo, depende do ponto de vista”, também há a arma da mentira, da notícia falsa que, nos últimos anos, levou a falta de credibilidade das informações.

 

Conversando com trabalhadores sobre a Reforma da Previdência, muitos, ao fazerem o cálculo, ficaram convencidos de que era ruim para eles, mas me deparei com alguns casos em que trabalhadores ignoravam o cálculo e afirmavam:

 

— “Só sei que tem que aprovar logo essa tal reforma para o país andar, o país tá parado com esse troço”.   

 

Vejam! A ideia de que o país depende da Reforma da Previdência para andar colou, mas quando reafirmava os dados e fazia os cálculos, o trabalhador preferia não pensar. Claro que estava implícito ainda uma crença no governo que acabou de assumir e que não importava o que eu dissesse e explicasse, o político  teria o apoio dos seus eleitores. Não é por acaso que reformas que prejudicam os trabalhadores são votadas no início dos governos, é uma tática de poder. Mas tem coisa nova nessa vida do século XXI! Com tantas mentiras circulando nas fake news e tanta informação sem formação,  muitos reagiram assim sobre as explicações: — “Eu vi isso mesmo, mas não sabia se era verdade. É tanta coisa que dizem, né?”                 

 

Como na fábula de Esopo, muitos não acreditavam na existência do lobo. O menino brincou tantas vezes assustando as pessoas dizendo que havia um lobo ali, só para ver as pessoas correndo assustadas que, quando havia realmente um lobo, muitos não acreditaram. Pois bem, falemos do lobo! Você vai ver o lobo, acreditando nele ou não.

 

Reforma da Previdência? 

Trezentos e setenta e nova ilustríssimos deputados votaram na última quarta-feira (10) a favor do país!? Vamos às contas, vejamos o lobo de perto: se você contribuir 20 anos (15 anos, mulher) e tiver 65 anos (homem) e 62 (mulher), poderá se aposentar. Tá bom pra você? Mas sinto lhe dizer que você só terá direito a 60% da sua aposentadoria!! Sério que ninguém tinha lhe falado? Senta aí e se acalme que tem mais: para você receber o total dos seus ganhos na aposentadoria, vai ter que contribuir 40 anos. Preste atenção!! Não se trata de tempo de trabalho, todos nós começamos a trabalhar muito cedo, você terá que contribuir regularmente 40 anos!! Sabe aqueles meses que você ficou desempregado ou na informalidade? Não contam, tá? Se segura aí que tem mais!  Sabe aquele salário mais baixo que você recebeu quando assinou sua carteira pela primeira vez e ficou pensando que só aceitaria porque era seu primeiro emprego? Pois é!  Vai entrar na conta para fazer a média de quanto você irá receber na sua aposentadoria. Isso significa que jamais você irá receber 100%, quando somar tudo e fazer a média, esses salários mais baixos que vão entrar na conta vão jogar sua aposentadoria para baixo.

 

Pergunta importante: quem consegue contribuir regularmente 40 anos?  Em 2018, segundo dados do IBGE, mais de 25% dos trabalhadores estavam sem registro formal. 

 

Vamos fazer uma continha tendo como base alguém que ganha dois salários mínimos. Por que esse salário? Porque 85% dos brasileiros aposentados pelo INSS ganham até 2 salários mínimos.  

 

Você acha que eles são privilegiados? Vamos às contas: Uma pessoa que ganha R$ 2000,00  e que passou a ter a carteira registrada com 25 anos (mesmo tendo trabalhado desde os 14 anos), vai precisar de 40 anos de contribuição para se aposentar com a totalidade do seu salário, com base na média de 100% de todos os seus ganhos. Vamos supor que ela tenha recebido R$1000,00 reais durante os 20 primeiros anos de sua vida de trabalho. Mesmo que tenha passado a ganhar R$ 2000,00 durante os últimos 20 anos, irá se aposentar somente com R$ 1500,00. Tem alguma coisa errada nessa conta?! Mesmo que essa pessoa tenha conseguido contribuir durante 40 anos, irá receber só isso? Isso mesmo, ainda assim, irá receber somente R$ 1500,00. 

 

A situação poderia ser bem pior. Como diria Belchior, “a realidade é bem pior, é o que eu quero dizer”. A maioria dos brasileiros não conseguem contribuir durante 40 anos, vão receber bem menos que isso.  Com 20 anos de contribuição (se for homem) e 15 anos (se for mulher) teremos direito a 60% da aposentadoria. 

 

Vamos manter esse nosso exemplo de R$ 2000,00 imaginando que essa pessoa, sendo homem, tenha recebido R$ 1000,00 nos 10 primeiros anos de contribuição. Depois de se dedicar muito e conseguir melhorar de vida passou a ganhar nos R$ 2000,00 nos últimos 10 anos. Mas  terá direito à 60% de R$ 1500,00.  Ou seja, essa pessoa que trabalha desde os 14 anos, mas só registrou carteira após os 25 anos e conseguiu contribuir durante 20 anos (devido ao tempo que ficou trabalhando informalmente ou desempregado), mesmo se dedicando no trabalho e ganhando R$ 2000,00 há 10 anos, quando tiver 65 anos,  terá direito a aposentadoria somente de um salário mínimo.   

 

Viu o lobo agora?! E não é verdade que o governo irá mexer com os privilégios. Os deputados não serão obrigados a abrir mão de suas aposentadorias especiais, somente os próximos mandatos eletivos; as empresas que devem bilhões à Previdência ganharam mais prazo para pagar.    

 

A economia que os ilustríssimos deputados e o governo pretendem fazer vai acontecer em sua maioria retirando dos que ganham menos, essa é a verdade que não vai aparecer nos grandes jornais, pois, como já dissemos, 85% dos aposentados do INSS ganham até dois salários mínimos. Mas será que não teria outra forma de economizar e garantir a aposentadoria dos trabalhadores?

O Brasil é um dos países com maior concentração de riqueza do mundo e aqui os acionistas das grandes empresas não pagam Imposto de Renda sobre lucros e dividendos de suas ações. Ou seja, o governo vai economizar, tirando dinheiro dos trabalhadores para pagar a dívida com o sistema financeiro e controlar a rolagem da dívida, onde os acionistas não pagam  Imposto de Renda e ficam cada vez mais ricos recebendo os juros mais altos do planeta.

 

Essa é a verdade que não vai aparecer na imprensa financiada pelo governo. Esses números são reais e a verdade existe e é dura! Essa é uma reforma dos privilegiados. O fato de cobrar um pouco mais de quem ganha mais vai interferir muito pouco (e ninguém é contra) nessa economia, essa é a meia verdade de toda ideologia. O vídeo que aparece o ministro Guedes dizendo que vai combater privilégios é uma farsa ideológica que viralizou nas redes sociais, uma “meia verdade” que não conta a estória toda e como boa parte das fake news, confundiu a cabeça de muitos trabalhadores.  O ministro impressionou falando dos salários dos funcionários do legislativo. O que ele não falou é que desde 2013 esses funcionários, assim como todos os servidores públicos,  já se aposentam com o teto de R$ 5.800,00. Tudo jogo de cena? Entendeu? E agora? Agora é se organizar para enfrentar o lobo que pode tirar o direito à nossa aposentadoria. Ainda há tempo! Faça suas contas, pois, como diria Brecht, é você que irá pagar a conta.

 

 

Fernando Viana é professor do Instituto Federal de Mato Grosso – campus Guarantã do Norte e coordenador de Formação Política e Relações de Trabalho do SINASEFE-MT.  

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