Aquiles Rique Reis
Aos poucos eles vão chegando. Os instrumentos já estão à disposição no estúdio de gravação. Como quem não quer nada, cada um se achega ao seu. A guitarra e o violão têm as cordas afinadas por Conrado Goys; na bateria, alternando batidas nas peças, Thiago Rabelo passa o som.
Paulo Viveiro tira o flugel e o trompete dos estojos e, com cuidado, ajeita os bocais; o trombone está nas mãos de Jaziel Gomes, que o trata com carinho; Márcio Roldan tem à sua frente um teclado Fender e um piano, e volta e meia alguém lhe pede para soar um Dó para conferir a afinação. Anderson Quevedo aquece as palhetas dos saxes alto, tenor e barítono e ajusta a embocadura da flauta; quase escondido atrás do baixo de pau, Daniel Amorim dedilha as quatro cordas buscando afiná-lo... O baixo elétrico ainda está na estante; Bruno Prado e Paulinho Timor formam a percussão.
Os crooners Verônica Ferriani e Caê Rolfsen fazem vocalise para aquecer a voz; os músicos convidados, Luiz Rabelo (percussionista), Josué dos Santos (saxofonista) e Silvio Gianetti (trombonista) se concentram.
O técnico de som está a postos. A gravação começa. Ao primeiro acorde da primeira música, cúmplices, os músicos sorriem, divertem-se com a própria competência.
Daí até o lançamento de Gafieira São Paulo (Sonora Produções Artísticas) foi um compasso. Com direção artística de Helton Altman e Pedro Altman, o álbum, ao valorizar o tocar para dançar sem perder a excelência musical, é uma joia.
Os arranjos são fundamentais. A cargo de Caê Rolfsen, Conrado Goys, Michi Ruzitschka, Rafa Barreto e Anderson Quevedo, tudo soa como se a formação instrumental não fosse sempre a mesma e faz com que a ginga ganhe sempre um toque de saborosa criatividade. A mixagem de Luiz Paulo Serafim favorece e muito o resultado final do som.
Verônica (grande cantora) e Caê (sua voz, apesar de não ser a de um cantor de ofício, é ótima) se revezam, interpretando um repertório de qualidade: Sou Eu (Moacir Santos e Nei Lopes) tem Caê como crooner. O suingue é pulsante. O naipe de metais vem sambando e dá clima ao arrasta-pé. Um solo de trombone, a bateria e a percussão a todos conduz.
Tem Mais Samba (Chico Buarque), com Verônica cantando, tem metais em brasa e a estupenda cozinha quebrando tudo.
Em Pressentimento, obra-prima de Elton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho, os metais fazem a introdução. Com violão e tamborim, Verônica canta docemente os versos, dividindo-os com sabedoria.
Sábado à Noite (Mauricio Tapajós e Paulo César Pinheiro) é cantado por Caê. A guitarra, a cozinha e um claro intermezzo com os metais atestam a convicção do poeta: (...) E o baile de sábado à noite/ É uma aula de samba.
E por fim, os versos escritos por Celso Viáfora para Convite pra Gafieira (cantados por Caê) não só homenageiam a Gafieira São Paulo, a jovem banda que vem ampliar o cenário dos bailes da vida, como sintetizam o que ela busca: valorizar a música e os músicos.
Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4