Cinquenta Tons de Liberdade | Gazeta Digital

Sábado, 10 de fevereiro de 2018, 11h03

Crítica de cinema

Cinquenta Tons de Liberdade

Observatório do Cinema


O penúltimo capítulo da saga Cinquenta Tons terminava com o pedido de casamento de Christian Grey (Jamie Dornan) para sua Anastasia (Dakota Jonhson), uma ação que por si só encerra um ciclo, mostra que apesar dos pesares, o casal da série chegou finalmente ao estágio que marca a comunhão de um relacionamento. E se os dois filmes da saga giravam em torno do sexo, como uma descoberta no primeiro, e uma aceitação no segundo, aqui parece que é justamente esse fator que se encerrou naquele pedido de casamento.

A questão do filme, ou melhor, a pergunta nunca respondida é o que vem depois disso, algo que se desdobra em o quê resta em Cinquenta Tons de Liberdade e toda sua franquia. Até pode ser questionado como o sexo é representado anteriormente, todavia era o sexo que colocava algum eixo naquela narrativa, apesar de todos seus equívocos na representação ideológica e até mesmo cênica desse sexo masoquista. Mas se o primeiro filme havia uma curiosidade em como um blockbuster americano abordaria uma narrativa sexualizada, e o segundo fazia com que o sexo fosse o motivo das fissuras entre o casal, aqui resta apenas o casamento e esse ponto vira apenas um artigo de luxo na casa do Sr. e Sra. Grey.

Parece que Cinquenta Tons de Liberdade acredita no senso comum que o sexo acaba após o casamento, e se era uma dificuldade para franquia recriar alguma sensualidade nos outros filmes, é ainda pior quando o longa tenta fazer de um relacionamento a sua matéria principal. Cinquenta Tons de Liberdade é marcado por uma falta de naturalidade extrema. Se antes os atores pareciam incomodados com a cenas mais picantes, não apresentando nenhuma química ou sexualidade, aqui eles se encontram sempre em situações que fogem de uma normalidade, mas que tentam reproduzir fatos que ocorreriam num relacionamento normal.

Esse talvez seja o elemento mais estranho no filme, como a narrativa parece desconhecer por completo o que é um casamento, ou no mínimo um relacionamento amoroso e seus problemas. Chega a ser engraçado como atitudes banais parecem algo de outro mundo para o casal Grey, e não pelo fato de serem diferentes e desacostumados com aquela vida, uma vez que se vê uma imitação de momentos comuns desenvolvidos com nenhuma espontaneidade. O exemplo máximo disso é um momento que logo depois da lua de mel Anastasia já questiona o marido sobre o possível fato de terem filhos, e a resposta de Christian é uma das mais absurdas, dizendo que não dividiria a esposa com mais ninguém. Algo que passa dos limites, num diálogo que soa absurdo em qualquer situação.

Evidentemente um filme afetado por essa falta de proximidade em relação àquilo que retrata tem todos seus elementos prejudicados. A atuação de Dornan e Dakota Jonhson parece sempre próximo ou completamente dentro de um overacting, a cada fala dada por um personagem os dois exageram nas caras e bocas, fazendo com que cada ato pareça distante de uma realidade dos fatos. Jamie Dornan é com certeza um destaque negativo do longa, onde realmente tudo o que faz parece engessado, parece despido de qualquer espontaneidade, como se realmente aquele homem não fosse um sujeito comum, mas que não apresenta particularidades, apenas essa distinção forçada.

Não é à toa que desde sempre Christian Grey foi o personagem mais problemático da saga, a submissão que ele pregava dentro das quatro paredes, sempre foi desculpa por normalizar comportamentos claramente obsessivos. Aqui não é diferente, e a liberdade presente no título do filme não é sentida a nenhum momento, pelo contrário, Anastasia parece ainda mais incomodada com seu marido. O problema é que mais uma vez, o discurso do longa nunca contraria os pensamentos de Christian Grey. Quando ambos estão sendo perseguidos no início do filme e Anastasia deve ir da casa para o trabalho, do trabalho para casa, é óbvio que algo dá errado justamente quando ela contraria o marido, indo tomar alguns drinks com uma amiga. Sem contar nas interrupções no trabalho de Ana por estar com um cliente bonito, ou o sexo vingativo na sua sala secreta, ou uma noção que nunca se perde na saga: a desculpa que pode ser comprada com viagens ou qualquer coisa.

Em Cinquenta Tons de Liberdade o sexo se resume a mais uma característica de Grey, algo que ele pode conseguir com seu poder e assim reparar aquilo que foi feito antes. Sem novidade, a sexualidade parece apenas um aspecto burocrático nesse terceiro filme. Assim como o seios de Dakota Johnson sempre expostos, a relação dos dois apenas se repete. Se pelo menos nos outros filmes servia para quebrar alguma barreira/preconceito de um dos dois, aqui é só mais um elemento, sem uma importância para a narrativa. O diretor James Foley continua nessas sequências a reproduzir aquele estilo de vídeo clipe com alguma sensualidade, música pop ao fundo com uma edição rápida que foca nos beijos dos atores, a fim de não sexualizar demais aqueles corpos seminus.

É bem verdade que Foley e o roteirista Niall Leonard limam do longa as frases de efeito que tanto causavam risos não calculados no capítulo anterior. O que torna Cinquenta Tons de Liberdade um pouco menos novelesco, um pouco apenas. Sem entender o drama dentro de um relacionamento, e ver o sexo perdendo importância, é curioso notar como a narrativa apela para as viradas quase inexplicáveis. Perseguições, sequestros e fugas começam a pintar no filme, Jack Hyde, que tentou assediar Anastasia anteriormente, agora se torna um vilão de outra magnitude, obcecado, algo que não faz sentido nem naquela trama, muito menos revela motivações que comprovem essa virada na trama.

Essa nova dinâmica do filme até pode dar uma arejada numa história que há algum tempo já não sustentava a relação entre seus protagonistas. É verdade que as perseguições e toda ação do longa são desenvolvidas como um artifício de novela, deixando claro até montagem gráfica quando os atores estão dirigindo. Assim o que se percebe é como Cinquenta Tons de Liberdade luta o tempo todo para apresentar motivos para o espectador continuar imerso na vida daquele casal. É interessante ver como a saga livre do sexo como algo inerente à narrativa acaba perdendo seu rumo.

Cinquenta Tons de Liberdade mostra mais uma vez que falta muita coisa além de um burburinho relacionado à sexualidade na proposta de seus filmes. Sobra muito pouco da trilogia nesse filme, assim como sente-se que quase nada ficará no espectador depois do fim dessa saga. 

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