Segunda, 25 de julho de 2016, 00h00

opinião

Penso, logo não existo II

Gonçalo Antunes de Barros Neto


Desculpem-me errar em René Descartes, mas boa parte dos homens ou mulheres públicos pensa ter adquirido a grandeza dos grandes. A lógica é interessante.

A posição de destaque lhes dá a sensação de superioridade e não de atores de um modesto picadeiro, pueril e intrigante, efêmero e pífio, que faz da ilusão, verdade, da modéstia, humildade.

Encenam esses megalomaníacos sociais dramas e caricatas comédias, divindades amadas por um Calígula moderno, expectador atento, adorador cruel e extravagante da miséria intelectual. Às vezes ébrios de alucinações, entorpecidos pelo narcisismo que lhes dá vida e destaque. Aliás, já assistiram a um julgamento colegiado?

O grande se faz pequeno, a mediocridade de uns o faz menor. É inevitável. Qualquer tentativa de apartear será alcunhada de atrapalhar os trabalhos, mostrar erudição e professar conhecimento.

Em brados, um dos míseros: estou com a palavra. Eis a mágica que se reveste de autoridade para afastar o debate. Não lhe é permitido às frustrações. Afinal, ilusão é verdade; encenação, realidade; independência, mito.

Que saudades do ócio. Não aquele que castiga uns para favorecer luxentos preguiçosos. Mas o elogiado por Bertland Russell -’O hábito de buscar-se mais prazer no pensamento do que na ação constitui uma salvaguarda contra a imprudência e contra a paixão pelo poder, um modo de preservar a serenidade diante do infortúnio e a paz de espírito em meio à aflição’.

Julgar está, hoje,e em qualquer sentido que não só o técnico, mais próximo da matemática do que de sentença. Etapa do conhecimento empírico, sentença vem de sentir, e só sente quem tem o hábito e a coragem de auscultar. Senão, não; e não. Ede novo, não.

Mas todos julgam, não só os juízes. Julgamos os vizinhos, os amigos, os parentes, enfim, bastou aproximar e o famigerado já se torna réu. Julgar, neste sentido, parece passar por um dever de vigilância e segurança. Um atributo da vida em sociedade.

Mas se ao leigo, gravidade não há, ao togado, responsabilidade se cobrará. É do juiz o papel de se evitar a máxima de Trasímaco que, ao dialogar com Sócrates, externou: ‘Afirmo que a justiça não é outra coisa senão a conveniência do mais forte’.

Vive-se, hoje, de um discurso que faz lembrar o argumento (ou pensamento) circular. Cobra-se celeridade nos julgamentos, produtividade etc., e a qualidade, a técnica, se calam.

O Judiciário (exceto, talvez, o Supremo Tribunal) deixou de ser centro irradiador dos grandes embates jurídicos que se tornaram célebres pela literatura. Hoje, se conforma em uma secretaria de prestação de serviços jurídicos, buscando, inclusive, os ‘ISO’ como prêmio de qualidade. Ou não?

É por aí...

Gonçalo Antunes de Barros Neto escreve em A Gazeta (email: antunesdebarros@hotmail.com).
 



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