Academicismo | Gazeta Digital

Terça, 27 de setembro de 2016, 00h00

opinião

Academicismo

Gonçalo Antunes de Barros Neto


Na rua ou pela rua o roliçar de tristes subjetividades faz nascer o doce sabor do que antes se encerrava engaiolado; liberdade, ainda que tardia.
Vivemos pela rua, ninguém vive para a clausura. Ela nos dá aquilo que nenhuma outra razão poderia - o ’a priori’ universal e necessário ungido às resenhas das conversas de botequim ou das calçadas-.
A rua tem base científica, se arrocha em enlatado se a ela acorre o barnabé da camisa de força, ou força sem camisa, que a própria ignorância não o faz necessário, apesar de universal.
Quem do arenoso de barro e alvenaria se fez criador ou mesmo criatura? Não se racionaliza aos opressores de si próprios, nunca conhecerão a rua, jamais. Que concessão havereis de dar aos ilustres domados pelo chapéu de telha ou de zinco, que ignoram o azul do dia ou as estrelas da noite?
Da geração dos HDs, os espinhos são teclados. Que saudade quando do universal era a água oxigenada dos conselhos a curar o que feriu pelo salgado das palavras, muito mais humano, necessariamente humano! Kant errou - o universal e necessário, em sendo ’a priori’, obedece mais à ordem empírica que racional, não há equilíbrio suficiente para a representação do que ainda não é-.
A rua é soberana; nem sempre racional, mas universal e necessária para o que se apreende, representação inicial de ser infindo. Não adianta se do cheiro da naftalina acadêmica o jaleco não se libertar. O ganhar a rua como antibiótico a reagir sobre bactérias encardidas, que não prescindem do novo, com liberdade, a inspirar-lhe por renovadas inquietações.
Como bem asseverou João do Rio, ‘sem o consentimento da rua não passam os sábios, e os charlatões, que a lisonjeiam lhe resumem a banalidade, são da primeira ocasião desfeitos e soprados como bolas de sabão. A rua é a eterna imagem da ingenuidade... A rua faz as celebridades e as revoltas... É preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível... ’ (A Alma Encantadora das Ruas).
Essas engenhocas a produzir ’Pokémon Go’ não conhecerão, ainda que nas esquinas o virtual se embola com a realidade, a verdadeira rua. A esta se reserva o direito de seletividade. Quantos litros de cerveja e saliva a mais ter-se-ia se o virtual cedesse à liberdade? O sol e a lua, em estrelas resplandeceriam.
Tudo seria novidade, de novéis em novéis até nas universidades. Quantos cientistas se apaixonariam e deixariam de se preocupar com os exemplos de Gettier a desmascarar a tal Teoria Clássica do Conhecimento. Este seria algo mais simples que crença verdadeira justificada. Quem sabe somente ser e essência observada na dinâmica de tempo e espaço?Como a simplicidade faz falta!
E assim caminharia a humanidade, cantando, mas sem qualquer obrigação de licença a Lulu Santos e Geraldo Vandré.
É por aí...

Gonçalo Antunes de Barros Neto escreve em A Gazeta (email: antunesdebarros@hotmail.com).
 



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