Domingo, 23 de outubro de 2016, 00h00

Liberdade sem dor? Onde?


Pode haver liberdade na dúvida? O antecedente da dúvida pode ser um preceito moral; caminhos opostos, mas possíveis sob o ponto de vista utilitário; ou mesmo mudanças de paradigmas e ’flexibilização’ de conceitos.
Não se cuida, aqui, de liberdade de escolha ou mesmo de livre arbítrio como estados mentais finais, mas a liberdade em processo de construção, com suas amarras ou nódoas questionáveis. Portanto, essa liberdade é compatível com a dúvida? A dúvida freia ou retarda a liberdade?
As barreiras são criadoras de dúvidas, ou não? Afinal, a moralidade e o universo cultural de cada um não são barreiras a ensejar dúvidas, travando ou atrasando a liberdade? Explico.
No natal, o que sobressai é o presente que se recebe na festa em família ou o nascimento de Cristo? A sua resposta, dada de pronto, coincide com a das crianças? Ou temos agora uma dúvida? Ao espancar a dúvida para proferir com objetividade a resposta, desencadeia-se o processo de formação da liberdade, no caso, de opinião. Então, o seu universo cultural e de fé não é o mesmo que o das crianças, como também não o é dos ateus, seguramente.
Desse singelo exemplo, se pode extrair a conclusão de que você possivelmente não tem liberdade, de pronto, não a pode tomar por posse; não sem antes despir-se, nu e sondado pelos valores. Quem sabe separando, considerado o exemplo dado, fé e natureza? Assim mesmo se teria a inserção da dúvida com novo processo de formação de liberdade.
A liberdade é um processo, deve ser construída com a respectiva negação, inicial, de todos os valores. É como fazer um delicioso suco batido no liquidificador. Considerando a pureza da água (considerando, em perspectiva, esqueça-se dos coliformes fecais que a todos obriga), nela acresça-se a fruta e depois adoça.Nesse misturar e acrescentar está a dialética desse processo todo.
E ainda tem gente que acredita ter liberdade!Liberdade só a tem os loucos e a criança que tivesse o privilégio de não conviver com os adultos após nascer. Um ser solitário da caverna, outra caverna que não aquela de Platão.
Não, as pessoas não querem se dar ao trabalho. A realidade que sustenta o corpo neste mundo está voltada para o utilitarismo de Mill, que pregava ser o maior princípio da felicidade a maximização do prazer e a minimização da dor. Aliás, é possível construir a liberdade sem dor?
Em época que ninguém se dispõe ao exemplo de Francisco de Assis, que pelo menos afugente o lobo que carrega dentro de si, deixando o cordeiro em paz. Cordeiro que nem liberdade tem, pois é néscio nesses assuntos.
Ode aos loucos, provavelmente os únicos que não precisam do liquidificador e nem das frutas, e muito menos do açúcar, para serem livres; do processo de formação da liberdade, nem os pássaros escapam.
É por aí...

Gonçalo Antunes de Barros Netos escreve aos domingos em A Gazeta. E-mail: antunesdebarros@hotmail.com.



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