12.07.2017 | 18h17
A empresária Shirley Aparecida Matsuoka Arrabal, dona do Grupo Soy juntamente com o marido Walter Dias Magalhães Júnior, disse à juíza Selma Arruda, na 7ª Vara Criminal de Cuiabá, que até hoje não entendeu o motivo pelo qual foi presa. “Não sei nem porque eu estou sendo acusada. Quando eu fui presa, não sabia nem porque estava sendo presa. Francamente, não sei mesmo! Sei que as pessoas falam que a gente deu golpe de milhões, sendo que a gente nunca fez isso”, disse chorando.
Questionada pela magistrada sobre a atuação do Grupo Soy, ela afirmou que era compra e venda de grãos, como soja, mas que nunca participou efetivamente da empresa porque era mais atarefada com os serviços domésticos e cuidando das quatro filhas. Segundo ela, não havia muitas conversas em relação à empresa com seu marido.
João Vieira![]() Shirley escondeu o rosto para não ser fotografada pela imprensa |
“Eu nunca participei disso, eu nunca sentei pra conversar com ele [Walter] sobre isso. (...) Ele nunca me procurou pra colocar a par de nada do que ele fez ou fazia”, disse. Questionada pela juíza se era seu marido quem administrava a empresa, Shirley respondeu: “Devia administrar, eu não sei se ele administrava. Eu sou muito leiga pra esse tipo de coisa pra chegar aqui e falar o que era”, respondeu.
A juíza também quis saber se o Grupo Soy também atuava no ramo de empréstimos internacionais e Shirley afirmou que seu marido nunca havia falado sobre isso. “Ele sempre estava no celular, mas eu nunca fiquei em cima dele, eu não gostava de fazer isso. Eu nunca briguei por nada, nem por esse tipo de coisa”, afirmou.
"Sonâmbula"
O Grupo Soy funcionava em Várzea Grande, onde a ré contou que tinha uma sala pequena, onde assinava documentos a pedido do marido, já que ela era a sócia majoritária, com 70% do capital social. Também havia ocasiões em que ela fazia serviços em cartórios e bancos, também a pedido de Walter e acompanhada de Evandro, contador da empresa e réu na ação.
“A partir do momento que ele pediu pra eu assinar os papéis que eu comecei a ir na empresa. (...) Eu ia lá no banco, conversava com o gerente, depois ele só me passava os dados, a senha, eu anotava tudo, chegava e passava pro Walter. Quando o Walter precisava de um saque, eu ia e entregava na mão dele. Quando precisava de uma transferência eu fazia. (...) Eu assinava porque o Walter sempre foi a frente de tudo na nossa casa, ele que fazia tudo”.
Diante das declarações de Shirley Aparecida, a juíza Selma Arruda chegou a perguntar se ela era alguma sonâmbula. “Praticamente isso”, respondeu a ré.
Contato com demais réus
A juíza Selma interrogou Shirley a respeito de sua relação com as demais pessoas que trabalhavam no Grupo Soy e ela relatou uma convivência superficial. “Tinha lá o Evandro, que era o rapaz que trazia os papéis pra mim assinar, meu marido, o João [Emanuel], tinha o doutor Irênio [Lima], o filho dele [Lázaro Moreira], e tinha uns advogados lá. Eu nem conversava com eles, porque eles ficavam na parte de cima e eu pouco ia lá, só os via quando iam na cozinha pra comer”, contou.
Shirley relatou de forma bastante incipiente qual era o papel de cada um na empresa. “Pelo que eu saiba o João Emanuel era administrador da empresa, o Evandro era contador, Lázaro e doutor Irênio nunca perguntei o que eles faziam, eu sei que eram advogados. O Marcelo [Costa] sempre estava lá, mas eu não sabia o que ele fazia, eu nunca perguntei. O chinês ia lá, ficava lá e depois de um tempo ele sumiu”, disse se referindo aos demais réus na ação que foi desmembrada.
A ré contou à juíza que apesar do Grupo Soy ter tido outros endereços, como o bairro Tatuapé, em São Paulo, no tempo em que viveram lá, e em Cuiabá, a empresa sempre funcionou no bairro Ipase.
Com relação ao imóvel próximo à Avenida do CPA, em Cuiabá, ela conta que seu marido iria comprá-lo e até já estava realizando reformas e compra de móveis para o local, que não chegou a ser utilizado.
Shirley também foi questionada sobre o patrimônio de seu marido e afirmou que “ele tem muitas fazendas, mas ele passa e, de repente, não está mais com essas fazendas”. Perguntada sobre aumento significativo no patrimônio, Shirley negou que isso tenha ocorrido desde que conheceu o esposo. “Pra mim, era tudo normal. A vida toda, o Walter sempre teve carros, sempre viveu desse jeito”.
![]() Shirley e o marido Walter Dias, no dia em que foram presos, em agosto de 2016 |
Choro pela família
Durante seu depoimento, a empresária chorou ao falar dos impactos da operação Castelo de Areia, em que ela e o marido são réus por estelionato, sobre sua família.
Ela contou que vive com Walter há cerca de 13 anos e que, após a prisão dele, sua filha mais nova, de sete anos de idade, começou a sofrer problemas de saúde, como sopro no coração, perda de visão e bloqueio no aprendizado.
“Ela sempre foi muito apegada a ele. Ela estava aprendendo a ler no Colégio Adventista, depois ela teve um bloqueio e não conseguiu mais. Ela também começou a dizer que estava doendo o coraçãozinho dela.O médico falou que era problema emocional, sopro. Agora ela está começando a ter problemas de audição”, relatou.
Shirley também chorou ao falar sobre seus pais, que são donos da casa onde vive no bairro Ipase, em Várzea Grande, local onde também funcionava o Grupo Soy.
“Ali, há 40 anos é da minha família! É do meu pai! Meu pai trabalhou muito tempo no Japão e fez essa casa”, disse Shirley. Segundo ela, Walter pagava um aluguel de R$ 1,5 mil para usar a casa principal do terreno e que sua mãe morava em uma casa nos fundos.
Shirley ainda defendeu o marido afirmando que o visita no Centro e Ressocialização de Cuiabá porque ela é única pessoa que ele tem em Cuiabá. Ela chamou Walter de generoso e de bom pai, até mesmo para as filhas mais velhas dela, que são de outro relacionamento.
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