Amigo de cabo da PM, contador foi interceptado por 'tabela' e teme retaliações | Gazeta Digital

Sexta, 09 de fevereiro de 2018, 09h31

Grampolândia pantaneira

Amigo de cabo da PM, contador foi interceptado por 'tabela' e teme retaliações

Celly Silva e Rayane Alves, repórteres do GD


João Vieira

Arrolado como testemunha  no processo contra 5 policiais militares envolvidos no esquema de interceptações clandestinas operado em Mato Grosso, que supostamente ocorreu a mando do 1° escalão do governo Pedro Taques (PSDB), o promotor de Justiça, Mauro Zaque, afirmou que deixou o cargo como secretário estadual de Segurança Pública porque houve falta de apuração do caso já que estava muito claro que acontecia "barriga de aluguel".

Zaque presta depoimento na audiência que está em andamento na 11ª Vara Militar, no Fórum de Cuiabá. O juiz Murilo Mesquita de Moura, responsável pelo caso, determinou o levantamento do sigilo judicial do processo a pedido do Ministério Público Estadual (MPE), de modo que a imprensa agora pode acompanhar os desdobramentos bem como as audiências. 

A denúncia sobre as interceptações telefônicas surgiu em maio do ano passado, quando Zaque relatou que encaminhou um ofício ao governador informando a existência da central de escutas telefônicas clandestina com a participação de membros do Executivo, conforme constava numa denúncia anônima que ele tinha recebido. Porém, o governador alegou que pediu ao então secretário que registrasse tudo no papel.

              

Na época, Taques argumentou que enquanto governador não poderia investigar qualquer pessoa e por existir no ofício, em tese, fatos ilícitos atribuídos aos policiais também não poderia mandar a PM investigar.

"Eu na condição de secretário, eu não podia e nem devia investigar aqueles fatos. Eu fiz o relatório e comuniquei porque estava muito claro que estava havendo barriga de aluguel. Eu encaminhei pra cobrar uma investigação. Eu não vislumbrei nenhuma investigação, depois eu pedi pra sair. Então, a falta de apuração foi o fator para que eu deixasse o governo", afirmou.

Ainda no depoimento, Zaque disse que assim que teve acesso aos documentos das interceptações feitas pela inteligência da PM, passou a salvar alguns números no celular dele. Depois disso, percebeu que vários contatos já tinha salvo no aparelho.

São réus no processo os coronéis Zaqueu Barbosa, Evandro Alexandre Ferraz Lesco, Januário Antônio Edwiges Batista e Ronelson Jorge de Barros, além do cabo Gerson Luiz Ferreira Corrêa Júnior.  Eles são processados pelos crimes de ação militar ilícita, falsificação de documentos, falsidade ideológica e prevaricação, previstos na Legislação Militar. A procedência ou não dos crimes apontados será julgada pelo Conselho Especial de Justiça, composto por quatro coronéis, e responsável por promover os atos do processo.

Acompanhe abaixo os principais momentos da audiência 

A audiência é suspensa e será retomada às 13h30

12h - A última testemunha a depor na manhã desta sexta-feira foi André Luiz de Andrade. Ele alugou uma sala comercial para o cabo Gerson perto do Museu da Caixa D'Água, no valor de R$ 1.5 mil, no período de seis meses.

Conforme ele, o Gerson disse que o espaço seria usado para escritório de contabilidade e o fiador do cabo era alguém com nome Elisângela. No final, o cabo disse que não iria mais ficar com a sala e sim uma sócia.

" O pagamento dele era sempre em dinheiro e adiantado. Mas, não conheci essa sócia porque nunca foi lá depois de ter alugado a sala", finalizou.

 

João Vieira

Henrique Siqueira

11h42 - Já o funcionário da empresa Simples IP, Henrique Siqueira, afirmou que apenas montou os equipamentos do hack na sala alugada e do servidor na sede da Titania.

Ele também contou que teve contato com o cabo Torezan na época pra receber as orientações. A empresa que ele trabalha fez a manutenção do sistema guardião, como por exemplo, troca de peças e não de software.

11h35 - O funcionário da Titania Telecom, Rosilto Correa, explicou ao juiz que a empresa apenas fez a locação do espaço numa sala comercial. Na época, ele era analista de rede e fazia atendimento no local que foi alugado de abril de 2015 até novembro do mesmo ano.

Então, o hack foi levado por ele e instalado na sala usada por Gerson no grampo. Ele afirma que apenas participou da instalação e remoção do hack na sala usada como central de interceptações. Segundo ele, o contrato estava no nome do cabo Gerson junto com outros dois funcionários da empresa Simples IP.

 

                 

João Vieira

Mário foi parar na grampolândia pantaneira por 'engano' já que seu contato estava salvo no celular do cabo Gérson, seu amigo pessoal

10h48 - A próxima testemunha é o contador Mário Edmundo Costa Marques que é amigo de infância do cabo Gerson. O número dele e da esposa foi interceptado.

Em depoimento, Mário afirma que por telefone um advogado amigo em comum dele e do cabo Gerson avisou que os telefones dele e da esposa foram interceptados por engano. No entanto, era para ele ficar tranquilo, pois foi 'parar na barriga de aluguel porque usaram os contatos que estavam salvos no celular do Gerson'.

Em uma das conversas informais, o contador afirmou que Gerson falou inclusive sobre as informações pessoais da deputada estadual Janaína Riva (MDB), e até sobre a opção sexual do governador Pedro Taques (PSDB), para o amigo. Mas, ele não deixou claro se soube por meio das interceptações ou não.

Relembrando trechos do depoimento de Mário Edmundo à Polícia Civil, o promotor Allan Sidney de Souza pergunta à testemunha se o cabo Gerson chegou a dizer que o governador era veado. O contador confirmou que ouviu este comentário do amigo.

Em outro trecho, o próprio Mário disse que recebeu a mensagem do Gerson dizendo que iria arregaçar com o Mauro Zaque, porque estaria sendo vítima de uma armação. Mas, o contador disse que foi antes do cabo ser preso.

Ainda no final do depoimento, o advogado Thiago Rafael, do cabo Gerson perguntou se o Mário sabia de alguma edição dos prints da conversas de WhatsApp que teve com o cabo porque no que consta no processo, só o cabo que falava.

Mário respondeu que pode ser que tenha apagado e por fim admitiu que tem medo de retaliação.

10h17 - Próxima testemunha a ser ouvida é a advogada Gisele Bergamasco, filha do Carlinhos Bergamasco, que está entre os contatos grampeados. Em depoimento a testemunha afirma que ficou sabendo dos grampos pela imprensa. Ela trabalhava na Casa Militar desde 2005, e teria pedido exoneração do cargo em 2015, por questões salariais. No órgão, atuou como assessora técnica e secretaria executiva do Comitê de Conflitos Fundiários.

Ao juiz, Gisele conta que recebeu uma mensagem de Sílvio César Correa Araújo, ex-chefe de gabinete do ex-governador Silval Barbosa, sem partido,pedindo ajuda para tirar um passaporte. Ela não atendeu as mensagens nem ligações. Mas, deu print e passou para o coronel chefe , Antônio Leite, que a orientou para encaminhar a denúncia ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), porque na época Silvio já estava preso por conta da Operação Sodoma.

No final do depoimento, Bergamasco contou ainda que teve dificuldades em conseguir emprego porque todas as pessoas tinham conhecimento que ela havia sido grampeada.

10h - Denúncia anônima- Sobre o momento exato em que descobriu o caso, Mauro Zaque afirma que chegou um envelope sem identificação ao seu gabinete junto com outras correspondências. No envelope estava um documento sem protocolo. Argumenta que não investigou o remetente porque sabia que a pessoa que enviou estava tentando se proteger e também proteger a fonte da informação. E também, segundo ele, porque focou no conteúdo da denúncia e enquanto secretário não tinha poder de investigação.

Um dos contatos do Zaque grampeado foi o Carlinhos Bergamasco. O promotor de Justiça afirma que chegou a ir até o município de Cáceres conversar com o juiz Jorge Alexandre que autorizou as interceptações para descobrir se o magistrado sabia do esquema de escutas na modalidade barriga de aluguel. "Ele se mostrou muito chocado, que foi enganado, se mostrou muito preocupado", detalha Zaque.

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