Trovões e rumores. Será? | Gazeta Digital

Domingo, 20 de agosto de 2017, 00h00

Trovões e rumores. Será?

Gonçalo Antunes de Barros Neto


Forçoso reconhecer que as tendências individuais estão em flagrante contradição com as tendências coletivas. Ou não?

Comecemos por analisar a sociedade, mais precisamente a ocidental. A sociedade, como organismo vivo e pulsante, não tem estrutura adequada para suportar a descarga moral de valores oriundos das religiões, justamente por se afirmar laica, enquanto resumo da vontade geral, encampada em um pacto gerador do Estado. Se não opta, não apreende discurso algum, imprescindível para qualquer enfrentamento.

Mas o indivíduo, sim, é devoto religioso. Professa aquilo que lhe proporciona benefícios, como paz, harmonia, resignação etc. E, se preciso for, vai para o embate na defesa de singular crença.

As tendências, individuais e coletivas, se chocam. Então, nem sempre é a soma, a concordância, o fator criador e legitimador de determinado sistema moral, e, apesar do exemplo, não se traduz somente na moral religiosa, mas a leitura correta do que resulta da complexa batalha entre as várias opções surgidas e sugeridas num específico recorte de tempo. Histórico, portanto.

E esse sistema moral, dele se toma conhecimento de que forma? Apreendemo-lo como? A percepção para Espinosa se dá de três modos: indução, crença (domínio da razão) ou intuição (Lívio Teixeira, biblioteca de Filosofia, Unesp).

Pela indução não pode ser, pois, do ponto de vista lógico, pelo fato de partir do particular, não pode deixar o plano de abstração. Explico. Se se pela indução se chegar a uma "lei", esta, pela sua origem, não poderá ser algo que se separou do todo. Tenha-se em mente que o particular, o individual, é abstrato.

Seria pela razão? Apreendemos o sistema moral através do raciocínio, tirando conclusões a partir de princípios aceitos por verdadeiros?

Ou, ainda, pela intuição? Seu processo mental, no plano da abstração, ao anuir no cumprimento de uma norma moral, o faz tendo em vista a realidade concreta? Se afirmativa, intuímos o sistema moral (diferente de moralidade). Se negativa, não fazendo qualquer diferença o concreto, a realidade, mas as propriedades gerais (valores), a percepção do sistema moral seria pela razão (crença).

O sistema moral é formatado e produzido considerando a noção de espaço/tempo. Lugar e momento histórico são indissociáveis do que se constrói no campo moral.

Essa angustia que já referia Heidegger, ou mesmo a altercação das ideias em Hegel, a gerar o necessário como padrão reflexivo serve para tirar a todos da zona de conforto.

Esse amontoado de pensamentos e ações, feixes de que se vale a vida a ser mais vívida, constrói o sistema moral numa determinada época, de um determinado povo. Disso não se escapa.

Ao olharmos para o Brasil, enxergamos nos gritos da nação, que se movimenta indignada, uma moral em mudança.

Quem não souber interpretar, nem o exercício da melhor filosofia, ajudará.

Gonçalo Antunes de Barros Neto escreve aos domingos em A Gazeta (email: antunesdebarros@hotmail.com).

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