Contos para crianças indígenas | Gazeta Digital

Sexta, 10 de novembro de 2017, 00h00

Contos para crianças indígenas

Elias Januário


Caros leitores, mesmo diante de um mundo permeado de tecnologias e de diferentes formas de transmissão do conhecimento advindos com a globalização, ainda encontramos comunidades tradicionais onde a oralidade consiste na principal forma de levar o saber para as gerações futuras, principalmente por meio das crianças. Em meio a tantas possibilidades de ter acesso a uma história ou conto, em algumas aldeias do Estado de Mato Grosso, a narrativa consiste numa forma amplamente utilizada pelos idosos de ensinar elementos fundamentais da cultura de uma determinada etnia, como por exemplo os mitos de origens, as histórias do contato com os não indígenas, a organização social da comunidade em que vive e particularmente os contos de caráter infantil, que retratam práticas relacionadas ao meio ambiente em que vivem como a mata, os rios, as estrelas, o sol, a lua, os animais, entre outras.

Diferente de como acontece na sociedade envolvente, ou não indígena, que tem nos contos infantis uma forma de fazer os filhos dormirem ou de relaxamento, para esses povos os contos para crianças são narrados ao longo do dia a dia, em diferentes momentos, como durante o banho de rio, a coleta de frutas, a busca de alimentos na roça, no pátio da aldeia ou mesmo nas reuniões noturnas. Percebemos assim que a perspectiva caminha mais fortemente no sentido da aprendizagem e do exercício da imaginação, mesmo que as narrativas sejam envoltas em seres e ambientes sobrenaturais, elas têm um pano de fundo de ensinamento e transmissão de conhecimentos sociais e culturais relacionados ao contexto em que a criança encontra inserida.

É fascinante encontrar em meio à comunidade indígenas, inúmeros contos destinados às crianças, ricos em conteúdos e significados, fundamentais para a formação social e cognitiva de uma pessoa. Do mesmo modo é preocupante ver todo esse acervo de narrativas sendo cada vez menos praticado no cotidiano das aldeias e consequentemente sendo perdidos na medida em que as pessoas mais velhas vão morrendo e os jovens já não têm tanto interesse em manter as narrativas orais.

Essa realidade se torna um desafio para as comunidades indígenas e para o poder público, em particular à educação intercultural voltada para as escolas indígenas, em estabelecer propostas que viabilizem a manutenção dessa prática, seja por meio da pesquisa e do registro desses contos, fonte indescritível de etnoconhecimentos, que as gerações futuras podem não ter mais acesso.

Diante do exposto, fica aqui o alerta para a formulação de políticas públicas para a valorização e manutenção dos contos para crianças indígenas, presentes em inúmeras comunidades tradicionais, e o exemplo positivo dos indígenas de como contribuir para a formação das nossas crianças, fazendo dos contos infantis muito mais do que simples histórias para ninar as crianças.

Elias Januário é educador, antropólogo e historiador, escreve às sextas-feiras em A Gazeta. E-mail: eliasjanuario@terra.com.br

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