Rituais em comunidades tradicionais | Gazeta Digital

Sexta, 24 de novembro de 2017, 00h00

Rituais em comunidades tradicionais

Elias Januário


Nas comunidades tradicionais, particularmente as indígenas, os rituais em sua maioria presididos por um pajé ou xamã, acontecem com muita regularidade ao longo do ano, seja para o preparo da terra para o plantio, para a colheita ou coleta de alimentos, nas caçadas e pescarias, na reclusão dos adolescentes, enfim, em diferentes momentos do cotidiano das aldeias os rituais acontecem como forma de expressão das relações sociais presentes em uma comunidade. É fundamental salientar que apesar de acontecerem com certa frequência, os rituais são constituídos de inúmeras regras e tem como objetivo primordial o fortalecimento dos laços sociais entre os integrantes de um determinado grupo de pessoas.

Vamos tomar como exemplo alguns dos rituais praticados pelos índios da etnia Zoró, que tem suas terras localizadas na região noroeste do Estado de Mato Grosso, no município de Rondolândia. Esses indígenas realizam rituais como o que celebra a visita do espírito das águas na aldeia, ocasião em que o xamã é tomado pelo espírito do tatu-canastra, que deve ser reverenciado pelos que estão participando com a oferta de presentes como objetos de adorno, além da oferta de alimentos como chicha e beiju de milho. O ponto alto deste ritual consiste no momento em que um jacaré vivo é levado ao pátio da aldeia e ofertado ao espírito das águas, sendo depois, no interior da casa de uma família, abatido e preparado como alimento a ser ofertado aos convidados.

Entre as atividades exercidas pelos homens Zoró, encontra-se a caçada, marcada por normas e regras que são rigorosamente seguidas pelos caçadores, como o ritual para a caçada do porco queixada, onde o xamã em contato com os espíritos da natureza, obtém informações precisas para os caçadores, como a localização dos bandos de porcos nas matas e cerrados.

Ainda em relação aos caçadores, existem regras de impedimento, como no caso de um homem que estiver com um filho recém-nascido, não pode matar determinadas aves e alguns mamíferos, bem como evitar a ingestão de carne destes animais. Se essa regra for desobedecida, o filho recém-nascido fica gravemente doente, podendo chegar a morte, caso o pajé ou xamã não consiga reverter a situação.

Durante as atividades de extração e coleta de alimentos da natureza, como por exemplo frutas, castanhas e mel, também são realizados rituais que invocam os seres do mundo sobrenatural, no sentido de evitar maldições e de agradecer aos alimentos obtidos. Ao retirar alguma coisa da natureza é fundamental agradecer por essa dádiva, sendo assim as famílias colocam grande varais no entorno da aldeia com os produtos extraídos e cultivados, como forma de agradecer aos seres da natureza.

A prática dos rituais sempre esteve presente na maioria das sociedades humanas e continua até os dias atuais, sendo exercido por diversos povos. Esses eventos são de extrema complexidade e estão impregnados por signos e símbolos da cultura e da organização social, sendo fundamentais na manutenção e afirmação da identidade étnica e cultural de uma comunidade tradicional.

Elias Januário é educador, antropólogo e historiador, escreve às sextas-feiras em A Gazeta. E-mail: eliasjanuario@terra.com.br

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