Era uma vez uma tarde vazia | Gazeta Digital

Sábado, 25 de novembro de 2017, 00h00

Era uma vez uma tarde vazia

Marinaldo Custódio


Então, numa tarde, eu, professor do projeto Poesia Necessária (este ano, em sua quarta edição, na E.E. Professor Nilo Póvoas, bairro Bandeirantes, Cuiabá), lá estava com meus alunos. Nem era uma reunião normal, por ser a primeira programada para a sexta-feira (antes, era na quinta), e tive de mudar de sala. Aí, dos 12 ou 13 presentes, apenas três garotas me acompanharam; os demais, por comodismo ou por outros interesses, resolveram ficar, numa outra atividade, pois que naquele horário tinham a prerrogativa da escolha, a chamada "eletiva".

Resolvi, então, propor às três últimas das moicanas a escrita de crônicas, o gênero que me coube "ensinar" desta vez. Saquei da manga aquele famoso plano B, aos 47 do segundo tempo, pra ver se conseguia virar o jogo, acreditando, como acredito sempre, na mística da pedra fundamental, qual seja, de que a pedra rejeitada pelos edificadores acaba por se tornar a pedra angular.

E, de fato, aconteceu. Lá estávamos nós na sala com ar-condicionado, um "luxo" que já chegou a algumas (ou muitas?) escolas públicas. Em pauta, o fazer crônica. A técnica oferecida, a velha e boa prática do chão de oficinas de redação em que alguém escreve o primeiro parágrafo, passa para outro, que passa para um terceiro, que passa para o seguinte ou devolve para algum dos anteriores. E aí a coisa rendeu, embora poucos fossem os padeiros. Os pães cresceram na forma sem forma.

Meninas (e meninos certamente) sempre surpreendem nessas horas. A rigor, Amanda e Pâmela quase não escreveram, apenas contaram histórias. Agora, Camila... quase não falou nada, mas como ela escreve, meu Deus! Pegava as minhas deixas e as das colegas e mandava ver! Sempre de modo surpreendente, com estilo e graça, expressando coisas que eu jamais escreveria fosse o condutor da trama até o final.

Interpretando poeticamente as falas das colegas, com título e primeiro parágrafo meus, Camila começou dando asas a uma brincadeira acerca do nome de pessoas (mulheres, sobretudo), a partir de um trecho da canção "Amanda", de Taiguara: "Amanda, vencido em meu castigo / eu trago a paz comigo / de volta pra ficar. / Amanda, recolhe meus pedaços / me acolhe nos teus braços / toma o espaço desta dor / e o teu lugar". Mandou bala, e mandou muito bem. Em seguida, brincou na escrita com o relato de Pâmela que na noite antecedente tinha ido dormir preocupada, celular ligado na função alarme, pois precisava acordar às 5h30 para a aula (prova) de matemática às 7h, e, por isso, não dormira nada, dormia acordando a cada meia hora, como sempre nos acontece em casos assim. Pra compensar, no sábado tinha festa pra ir. Agora, já livre da matemática, sua alma estava em festa. Ou em pré-festa, o que talvez seja ainda melhor. E nossa nova escritora ainda aproveitou para indagar, ao final, o que cada um de nós faria, afinal, quando saísse dali, na sexta, e, depois, no sábado. O resultado da crônica? Se não igual, certamente ainda melhor que o da anterior.

Parafraseando a música do Ira!, diria que as três me acompanharam naquela tarde vazia e me valeram o dia. Ou, melhor dizendo, me valeram o curso inteiro!

Marinaldo Custódio é escritor e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Prepara, para publicação, o seu segundo livro: "Vestida de preto e outras crônicas". Contato: mcmarinaldo@hotmail.com

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