A onda centro-direita | Gazeta Digital

Segunda, 27 de novembro de 2017, 00h00

A onda centro-direita

Daniel Almeida de Macedo


As eleições presidenciais no Chile, realizadas no dia 19 de novembro, terão um segundo turno. A disputa eleitoral será entre o ex-presidente Sebastián Piñera (2010-2014) e o jornalista e senador governista Alejandro Guillier.

As sondagens prévias de intenção de voto projetavam Piñera com aproximadamente 45%, mas a contagem das urnas confirmou apenas 36% de votos para o candidato que tem o apoio de conservadores e de setores da centro-direita chilena. Esse resultado fez aumentar o entusiasmo de Guillier, senador eleito pela região de Antofagasta (norte) e que representa os partidos tradicionais de esquerda. Sebastián Piñera, no entanto, parece avançar de forma consistente para uma vitória definitiva no segundo turno que ocorrerá em 17 de dezembro.

Considerado um dos homens mais ricos do Chile, Piñera é um clássico representante das forças políticas conservadoras. Em sua trajetória profissional ocupou posições importantes em organismos internacionais, além de manter fortes conexões com os partidos políticos Renovação Nacional (RN) e o União Democrática Independente (UDI), que serviram como sustentação política da ditadura do general Augusto Pinochet entre 1973 e 1990. Se Piñera conquistar a vitória no segundo turno, é provável que pautas como o casamento gay com direito à adoção e o aborto terapêutico, polêmicos temas impulsionados no Congresso pela atual presidente Michelle Bachelet, sejam revistos. Em realidade, especialistas apontam que foi justamente a tentativa de Bachelet promover reformas de esquerda que acabou por comprometer a sua popularidade, que no início do mandato era superior a 60%. A presidente, que em breve deixará o Palácio La Moneda, a sede da Presidência da República do Chile, empenhou-se em desconstruir o legado neoliberal de Pinochet em áreas como educação e sistema eleitoral, promoveu ainda uma controvertida reforma trabalhista, além de aprovar a descriminalização do aborto. Esse remodelamento não agradou diversos setores da sociedade chilena, que é composta por uma classe média muito poderosa, resultando na queda de sua popularidade que agora está em 29%.

Os movimentos políticos observados no Chile se somam à onda centro-direita que vem tomando conta da América Latina. No continente Sul-americano, nos últimos dois anos, chegaram ao poder o empresário Mauricio Macri, na Argentina, o ex-banqueiro Pedro Pablo Kuczynski, no Peru, e, no Brasil, Michel Temer que assumiu o cargo depois do impeachment de Dilma Rousseff.

O fim do boom de preços de matérias-primas, que causou muitos problemas econômicos em vários governos de esquerda, uma demanda maior por ordem e rigor contra o crime e até o avanço das religiões evangélicas, com posturas mais conservadoras, estariam entre as razões para o fenômeno do crescimento do número de latino-americanos que hoje se colocam à direita no espectro político. Some-se a isso a triste crise econômica, política e social que enfrenta a Venezuela, um ícone do socialismo no continente. Todos esses fatores, em seu conjunto, levam à atual vantagem da direita política, avalia Marta Lagos, diretora da organização Latinobarómetro. No Chile, a vitória de Sebastián Piñera confirmaria a virada da região para a direita, marcando uma tendência clara antes das eleições presidenciais de 2018 no Brasil, México, Colômbia, Venezuela e Paraguai.

O que todos desejamos são governos eficientes e capazes de encontrar soluções para os graves problemas comuns às nações latino-americanas, e não uma ideologia específica. Se os partidos mais à direita, que estão ascendendo ao poder nesse momento, não conseguirem resolver os graves problemas sociais e econômicos que historicamente assolam a região, o pêndulo pode voltar para a esquerda muito rapidamente.

Daniel Almeida de Macedo é Doutor em História Social pela USP

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