Câncer: um estigma para a sociedade - 1 | Gazeta Digital

Sexta, 01 de dezembro de 2017, 03h00

Câncer: um estigma para a sociedade - 1

Elias Januário


O câncer, em suas inúmeras formas de patologia, não é uma doença de conhecimento recente da sociedade mundial. Quando tocamos neste assunto com as pessoas, a grande maioria revela que alguém da família ou pessoa próxima tem, teve ou faleceu em decorrência dessa enfermidade. No entanto, as reações dessas pessoas são as mais diversas e até surpreendente quando o tema é essa doença. E é sobre as reações das pessoas, seguidas de recomendações, afirmações, conceitos, orientações, temores e sentimentos, que vamos conversar um pouco sobre esse assunto, pelo viés do impacto social e cultural que iremos refletir essa problemática.

Aliado à minha formação como antropólogo, conta muito também o fato de que, há mais de quatro anos, venho lutando, com avanços e retrocessos, contra um tipo raro de câncer ósseo, mieloma múltiplo, no arco costal, que alterou sensivelmente a trajetória da minha vida e de muitas pessoas que estavam e ainda estão a minha volta.

Mas o que me levou a abordar esse assunto pelo olhar antropológico, em dois textos, além da minha formação, foi o posicionamento por meio de textos e entrevistas da atriz Márcia Cabrita, que foi a óbito recentemente, depois de alguns anos de tratamento contra um câncer no ovário. E que sempre me chamou muita atenção pela clareza, lucidez e franqueza com que lidava com as reações das pessoas em relação ao câncer, das quais partilho e quero trazer para vocês leitores, como uma proposta de repensar os "clichês" e frases de efeitos que ouvimos constantemente, de pessoas das diferentes classes sociais em que vivemos.

A atriz escrevia crônicas e textos num blog que mantinha intitulado "força na peruca", onde expressou um lado pouco revelado pelos que tiveram ou têm câncer, onde tratou de expor as fragilidades e as mazelas que a doença provoca na vida cotidiana de muitos, sendo que a sociedade foi criando padrões considerados "politicamente corretos" como forma de se referir à doença e seus desdobramentos, como por exemplo, quem tem câncer tem que parecer um super-herói, não deve reclamar, tem que ter só pensamentos positivos, não falar do sofrimento, dos medos, das dores, do cansaço, da reações horríveis da quimioterapia, enfim, para muitas pessoas que estão ao nosso redor, tudo tem que parecer e aparentar maravilhoso, superável, resistível, positivamente resolvível.

Lógico que não devemos ficar reclamando o dia todo, como se estivéssemos em frente ao muro das lamentações, mas também não dá para fazer de conta, como nos contos de fadas, que tudo vai ficar bem e ter um final feliz. Sabemos que não é bem assim, que existem casos que a cura ou a melhora acontece num curto espaço de tempo. Em muitos outros casos, a situação se arrasta por anos e acaba da pior maneira.

O que acontece é que a sociedade na qual estamos inseridas vai estabelecendo padrões sociais de comportamento para quem tem câncer, como se fossemos todos iguais e, sem perceber, acabamos nos "enquadrando" neste modelo esperado socialmente. Chegamos a ser criticados e censurados porque não estamos sendo otimistas e dá para ser otimista o tempo todo ou mesmo que não estamos lutando com todas as forças pela vida e dá para ser forte o tempo todo quando na verdade somos humanos e não super-humanos.

No próximo texto continuaremos com o tema, ressaltando o estigma que foi criado em relação ao câncer, a concepção injusta de que quando morremos é porque não lutamos o suficiente pela vida, ou seja, somos culpados pela própria morte. E também o trabalho fundamental dos profissionais médicos, enfermeiros e técnicos da área da oncologia. Verdadeiros guerreiros.

Elias Januário é educador, antropólogo e historiador, escreve às sextas-feiras em A Gazeta. E-mail: eliasjanuario@terra.com.br

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