Julgando, sempre | Gazeta Digital

Domingo, 03 de dezembro de 2017, 00h00

Julgando, sempre

Gonçalo Antunes de Barros Neto


A pessoa se reconhece através de um complexo processo de autoavaliação e reflexão. Mas só?

Sabemos, a partir do pensamento moderno, em especial o de Lacan, que o ser se reconhece no outro, sim, na alteridade, na comparação dialética entre aquilo que sou (comportamento, atitude, posição frente às vicissitudes da vida etc.) e o que tudo isso representa no outro, ou de como esse outro se manifesta.

Vejamos, então: o reconhecer-se no outro não é um julgamento?

Pois bem. Nos acertos e erros do outro é que nos descobrimos em acertos e erros, também. Assim, a partir daquilo que julgamos acertado ou errado no outro é que nos definimos e caminhamos solitariamente para a própria subjetivação.

Neste exato momento, lendo estas palavras iniciais, já estamos concordes ou discordes; julgando, portanto. O julgamento dos amigos, do vizinho, dos colegas de trabalho, da família, todos, e dos mais variados tipos, estão no dia a dia de cada qual e para cada qual.

Nas redes sociais, os julgamentos são mais abertos, transparentes, a exceção é o anonimato, deste o sufixo já diz tudo.

Consideremos o Facebook, das curtidas ou não, já que a ferramenta está a um "clic" do interessado, se pode sentir a reprovação ou aprovação de seu texto ou comentário. Ou ainda, a indiferença, que não é muda, mas eloquente. Julgou-se eletronicamente e em tempo real, e o autor pode avaliar os "amigos".

O anonimato se relaciona mais com os sites de notícias, nos comentários. Tirando o conteúdo que de cara se percebe o interesse pela vindita, ou de falta de cultura e conhecimento, têm-se verdadeiras lições a tirar.

Os teóricos sociais deveriam debruçar-se mais sobre isso. Há uma coerente participação popular neles, uma corresponsabilidade no produzido e no resultado. A máscara cai, dependendo da "argumentação" dos comentaristas, anônimos ou não.

O recato, a paz dos inocentes, não prevalece mais, foi-se embora, impotente. Está-se a criar novas tolerâncias. A profundidade dos acontecimentos não importa mais, todos querem participar. A capacidade e conhecimento de causa é detalhe dos desavisados.

E diante disso, como ser feliz na comédia contemporânea? Ser ou não ser, que desculpemos a Shakespeare, não é mais a questão. É outra a inquietação, é de sobrevivência, de dramaturgia.

Para Santo Agostinho, aqueles que viveram retamente, amando o bem, afastando-se do mal e dos maus, embora esteja sujeito a sofrimentos terrenos, gozarão das delícias do porvir.

Que assim seja, pois, dos julgamentos por aqui, o de lá deve ser mais suave.

É por aí...

Gonçalo Antunes de Barros Neto é juiz de Direito e escreve aos domingos em A Gazeta (e-mail: antunesdebarros@hotmail.com).

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