A mãe que quero ser | Gazeta Digital

Segunda, 04 de dezembro de 2017, 00h00

A mãe que quero ser

Carolina Nogueira Amorim


Fala-se muito em amor materno, atribuindo-se à condição de mulher o amor que será oferecido por esta como mãe. Mulher possui instinto materno, Mãe ama desde o ventre, Mulher nasceu para ser mãe, Quem não é mãe, não experimentou o amor pleno, e nesta linha seguem os valores que recebemos como mulher e futura mãe (e ai de quem diz que não quer ser mãe).

Doce conquista elevada ao patamar de obrigação e que pode gerar um verdadeiro atropelo na vida da mulher que recebe um bebê para chamar de seu...

Pelo bombardeio de crenças grande parte das mamães com a chegada do filho passam a acreditar que a vida mudou drasticamente e que precisará desempenhar, com amor todas as funções que decorrem das necessidades deste filho. Mãe que não se entrega parece ser menos mãe e para não passar essa impressão ou viver esta culpa, inicia-se o processo de esquecimento de si mesma.

Diante disso costumo perguntar: Será que é preciso mesmo amar alguém que nem conheço? (filho no ventre). Será que é dever de mãe gostar de trocar fraldas 6 ou 7 vezes num período de 12 (doze) horas?. Será que a mãe é a única salvação do filho em seus choros mais profundos?

É indiscutível que o relacionamento mãe e filho gera um vínculo que não encontra barreiras. Vive-se através da maternidade o amor supremo, enriquecedor e pleno.

Por outro lado, não se pode perder de vista o fato de que relacionar-se com um filho é relacionar-se com um ser humano. A relação entre dois seres humanos implica alinhamento, adequação, compartilhamento. O dar e receber entre mães e filhos existe, afinal a mãe também tem as suas próprias necessidades e não há egoísmo nisso.

Um filho saudável do ponto de vista da relação familiar, certamente tem uma mãe saudável e isso é possível sempre que a mãe tem os seus limites reconhecidos e seus anseios atendidos também.

Há mães que optam por ser mãe em tempo integral e sim, são saudáveis, lindas e plenas, sabem o que querem e querem ser mãe com exclusividade. A estas, serve a reflexão porque desempenham a maternidade que querem e com alegria, por escolha, com equilíbrio.

Há mães que preferem as tarefas profissionais e delegam a necessidade de afeto dos filhos a outra pessoa, escola, outro familiar e sim, são também saudáveis, lindas e plenas.

Porém, é possível que todas estas mães, mesmo tendo feito a escolha que quiseram, se peguem pensando ser menos mãe por não ter escolhido o sacrifício.

Pesa sobre nós, mães, a crença de que mãe sofre afinal, padece no paraíso não é.

Certa vez ouvi de uma mãe: Agora que seu filho chegou, pelo menos um ano em casa, dedicando-se a ele heim? Vida nova!

Ouvi também de uma mulher a pergunta: Está grávida? E a conclusão: poxa, coitado do seu chefe?

Ouvi também de outra mamãe: Como você tem coragem de dizer que logo que seu filho nasceu você nem o reconhecia ainda?!

Diante de tudo isso, acolhi os ensinamentos, caí, amamentei com fome, fiquei sem dormir, chorei, fiquei um dia todo sem tomar banho, experimentei o gosto do sacrifício extremo e recuperei o meu ser. Segui, sendo mãe, profissional, esposa, filha, tia, madrinha, sem me sacrificar já que identifiquei que isso tudo era importante pra mim.

Sim eu atendo às necessidades do meu filho e muitas vezes atendo as dele antes das minhas, vou ajustando a minha vida à dele de uma forma que eu possa amá-lo e possa aproveitar todos os momentos de carinho que ele me proporciona (e aqui entra o banho juntinho, o prato de comida dividido, o "mamá" enquanto converso ao telefone ou organizo o almoço do dia seguinte, a música enquanto como um doce que não quero que ele coma). Vivo isso desfrutando, tendo prazer, sem ficar chocando o bebê cujo cordão umbilical já foi desligado.

Sigo, exercendo meus papéis desejados, cada um no seu tempo e em seu lugar.

Concluí que a melhor mãe que meus filhos podem ter é uma mãe livre e dedicada a eles sim, porém, sem atropelos, sem neuras, sem padrões, sem deixar morrer a mulher, a esposa, a filha, a profissional, a cidadã que habita em mim.

Coexistir e cocriar a relação mãe e filhos. Esta é a expressão que define o meu maternar e o que eu desejo é que todas as mamães tenham o direito de escolher a mãe que desejam ser, sem padecimento, sem choros prolongados, sem morte interior. Mãe com vida, mãe com propósito, mãe com calma e com alma, mãe.

Carolina Nogueira Amorim é Mãe, assessora jurídica e formanda em Coaching pelo IBC - Instituto Brasileiro de Coaching

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