Fatos da colonização | Gazeta Digital

Sexta, 19 de janeiro de 2018, 00h00

Fatos da colonização

Elias Januário


Semelhantemente ao que aconteceu com os demais povos indígenas do estado de Mato Grosso, que foram vitimados pelo confronto das frentes de colonização estabelecidas para ocupar o centro-oeste do país e trazer o progresso, na política do governo militar que ficou conhecida como "marcha para o oeste", os índios Umutina também sofreram os impactos dessa ação de ocupação e colonização dos que chamavam na época de "espaços vazios"

Segundo os estudos existentes, os índios Umutina consistem numa ramificação do povo Bororo, pertencente ao tronco linguístico Macro-gê e a família Otake. Ocupavam inicialmente grande parte da região norte do estado, particularmente as proximidades do rio Paraguai, rio Sepotuba, rio Jangada e rio Bugres. Ficaram na época do contato conhecidos como os "índios barbados" devido ao fato de possuírem barbas, segundo alguns pesquisadores postiças, feitas de pelos de macaco bugio.

O território atualmente ocupado pelos índios Umutina consiste numa área de transição entre o Pantanal e a Floresta Amazônica, delimitada pelos rios Paraguai e Bugres, formando um espaço semelhante a uma ilha fluvial, com vários córregos e nascentes que proporcionam áreas de grandes buritizais. Por tratar-se de uma área plana, com pouco relevo, durante a estação chuvosa costumam formar grande áreas inundadas cobertas de capim conhecido como sapé. Essa geografia mais densa e a vigilância dos indígenas tem contribuído para evitar invasões nas terras que são demarcadas e homologadas.

A população vive basicamente do cultivo da agricultura, pecuária, pesca, extrativismo, confecção de artesanatos e atualmente de renda obtidas dos funcionários públicos do estado e do município que trabalham na saúde e na educação.

O contato oficial com os Umutina ocorreu por ocasião da construção das linhas telegráficas pelo Marechal Rondon, por volta do ano de 1911, quando foi edificado um posto de atração, ou seja, local para colocar objetos e mantimentos para atrair os nativos e começar a estabelecer o que chamavam de "pacificação" ou contato por meio da oferta de presentes.

Pelo fato de os Umutina serem uma população pequena, se comparada a outros povos, outras etnias foram trazidas para essa região onde foi construído o Posto Fraternidade, que abrigava mais de oito povos como Paresi, Nambiquara, Kayabi, Bakairi, Irantxe, Terena, Bororo e Umutina.

Encaminhar índios de uma aldeia para outra era uma forma de punir aqueles que desobedeciam às regras estabelecidas e manter o controle da ordem social. Com essa prática teve início o casamento intertribal dando origem às novas gerações, com uma série de problemas sociais e culturais, como a questão da identidade e do pertencimento a um determinado povo, bem como a perda da língua materna indígena, passando a ser o português a primeira língua dessa nova geração.

Elias Januário é educador, antropólogo e historiador, escreve às sextas-feiras em A Gazeta. E-mail: eliasjanuario@terra.com.br

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