Governos emblemáticos | Gazeta Digital

Terça, 23 de janeiro de 2018, 00h00

Governos emblemáticos

Onofre Ribeiro


Acompanhei de perto todos os governos de Mato Grosso desde Garcia Neto (1975-1978), até o de Pedro Taques (2015 a 2018). Cada um com as suas características e desafios. Destaco dois que representaram rupturas. Por isso chamo-os de emblemáticos: Blairo Maggi e Pedro Taques. Explico o porquê.

Ambos desestruturaram as práticas políticas existentes. Vamos aos fatos. Em 2002 a política estadual estava assentada em alguns nomes: Dante de Oliveira, Antero Paes de Barros, Júlio e Jaime Campos, Carlos Bezerra, Jonas Pinheiro, José Riva, Roberto França, principalmente. Esses eram os cardeais. Dante era candidato ao Senado, Antero ao governo. Vitória certa. Aprovações altíssimas nas pesquisas. Aparece o produtor de soja Blairo Maggi. Elegeu-se à revelia dos cardeais e deixou-os à margem da sua primeira gestão. Mas na segunda gestão teve que re-cooptá-los na reeleição. De qualquer modo, o estilo tradicional de gestão mudou muito a partir de Blairo. Elegeu-se senador e de longe dá encaminhamentos políticos graças à sua influência no Estado.

Pedro Taques saiu do nada em 2010 e elegeu-se senador no vácuo deixado pela perda de influências dos cardeais da era anterior. E a própria morte de Dante de Oliveira em 2006, aos 54 anos, contribuiu para a desestruturação do cardinalato político. Elegeu-se senador com 708 mil votos. Curiosidade: na mesma eleição em que Blairo também se elegeu senador. Teve uma passagem rápida e eloquente no Senado. Em 2014, no vácuo deixado pelo cardinalato, elegeu-se governador com 833 mil votos, numa eleição completamente morna.

Como Blairo, Pedro Taques governou o primeiro mandato sem oposição. Os cardeais agora sem Dante e Jonas Pinheiro, mortos, Antero, Roberto França, e Riva, sem mandato, Júlio e Jaime Campos, deixaram Taques governar. A rigor quem mais o atrapalhou foi a oposição dos funcionários públicos.

A morte política e física de Dante e Jonas, o afastamento de José Riva, somados com a ausência de mandato de Júlio e Jaime, deixaram um quadro paupérrimo na política de Mato Grosso. Renovação de cardeais com a entrada de Welinton Fagundes e Nilson Leitão. Nesse ambiente os cardeais e os partidos entraram numa paranoia de apoiar ou criticar o governo Pedro Taques e se esqueceram de exercer política.

Idêntico fenômeno ao de Blairo Maggi. Este não teve qualquer oposição. Foi à reeleição sozinho e se elegeu com o pé nas costas. Hoje Pedro Taques caminha solo pra governador. Os cardeais terão que compor com ele pra terem sobrevida. O que aproxima Blairo Maggi e Pedro Taques é justamente a ruptura que as suas gestões representaram no quadro político de Mato Grosso. Mudar isso, só com renovação dos cardeais. Cada vez mais longe. Formar um cardeal leva muito tempo!

Onofre Ribeiro é jornalista em Mato Grosso. E-mail: onofreribeiro@onofreribeiro.com.br

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