Chapada dos turistas | Gazeta Digital

Sexta, 26 de janeiro de 2018, 00h00

Chapada dos turistas

Elias Januário


Caríssimos leitores, aqui estou eu novamente enveredando por assuntos que não são muito comuns em meus textos, no entanto, me sinto com autoridade para fazer uma reflexão sobre a presença de turistas na cidade de Chapada dos Guimarães, com seu lado bom e principalmente o ruim, pelo fato de ser antropólogo e morador do município de Chapada dos Guimarães, o que me legitima a me posicionar de maneira política enquanto cidadão e social e cultural na condição de antropólogo.

Quando morava em Cuiabá subi muito a serra para passar final de semana prolongado ou vir a eventos na cidade de Chapada dos Guimarães, lógico que me divertia muito e achava tudo muito legal. Afinal estava na condição de "turista" que vem para se divertir, descansar, passear, curtir as belezas naturais do lugar e depois descer a serra e voltar para casa, nada de errado nisso.

Hoje na condição de morador há três anos na cidade de Chapada dos Guimarães, consigo ver esse contexto por outra perspectiva, ou como falamos na antropologia, com um "olhar esquadrinhador" e "com o sentimento de pertencimento". Isto é, como cidadão chapadense.

Não me cabe aqui achincalhar com os turistas, afinal morei por mais de vinte anos em Cuiabá, mas tecer algumas considerações no sentido de problematizar questões sociais e principalmente de política pública da gestão municipal, com a finalidade de buscar caminhos de rever práticas e atitudes para o melhor exercício da cidadania plena.

Imagina uma localidade que tem cerca de cinco mil habitantes que moram na cidade de Chapada dos Guimarães e já sofrem com a falta de água, de saúde pública, de rede de esgoto, de rede telefônica fixa e de celular, de placa e faixa de trânsito para sinalizar, de policiamento e coleta de lixo adequado, entre tantas outras coisas. Enfim. Nos finais de semana com eventos e feriados prolongados, a população da cidade ultrapassa os dez mil habitantes, tendo ocasião, como divulgado na mídia, em que chegou a quinze mil pessoas.

Imaginem o caos que vira essa cidade. Não tem água, não funciona celular e nem wi-fi porque a rede não comporta, o trânsito sem sinalização e faixa de pedestre fica no "salve-se quem puder", o lixo acumula porque não tem lixeira e nem banheiro para tanto turista (sem falar na falta de educação do turista brasileiro). Tudo fica o dobro do preço na cidade, quando se acha o que precisa.

O que a cidade ganha com isso? Sei lá... porque a maioria das pessoas que sobem a serra e tem casa em Chapada compram tudo nos mercados em Cuiabá, chegam inclusive a trazer as empregadas domésticas de Cuiabá. Ou seja, não compra quase nada na cidade, usa muito pouco a mão de obra da cidade e por aí vai.

Cidade turística e de veraneio funciona assim. Sem dúvida que sim. Mas é preciso que a gestão municipal tenha planejamento e ofereça o mínimo de estrutura para receber o dobro ou até o triplo da população da cidade. E que nós, moradores fixos, não tenhamos que passar por esses períodos, sofrendo com todos os perrengues já mencionados, sem falar na cidade que fica uma sujeira só após esses períodos.

Em nenhum momento estou me posicionando contra a presença dos turistas e dos cuiabanos, mas cobrando do poder público local planejamento e política pública condizentes com a cidade de Chapada dos Guimarães, que é eminente e economicamente uma cidade de turismo e de veraneio. Não basta apenas enfeitar a praça ou colocar plantas ornamentais na entrada da cidade para receber os turistas, plantas essas que na semana seguintes estão todas mortas. Precisamos de política pública séria, decente e ética.

Elias Januário é educador, antropólogo, historiador e escreve às sextas-feiras em A Gazeta. E-mail: eliasjanuario@terra.com.br

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