E a China? | Gazeta Digital

Segunda, 29 de janeiro de 2018, 00h00

E a China?

Helio Monti


O que fez a China se transformar de um país medieval, fechado e atrasado na maior economia do planeta? Tudo começou em 22 de julho de 1977. Esta é uma data que mudou o mundo tal como o conhecemos. Naquele dia, Deng Xiaoping voltou ao poder na China depois de uma temporada no ostracismo por ser visto com desconfiança por seu chefe Mao Tse Tung. Depois da morte de Mao, em 1976, Deng retornou ao poder para fazer história. O que se viu a partir de então foi a gênese de uma nova era na China, embalada por uma mistura de socialismo com capitalismo que fez o país sair, em tempo recorde, da periferia do mundo para a condição de superpotência. Ao contrário do rígido comunismo russo, a China sob Deng, permitiu que as pessoas montassem seus negócios e lucrassem .

Ninguém enriqueceu tanto, com os princípios de Deng, quanto a própria China. Segundo o historiador e pesquisador da Universidade de Pequim, Eric Bussche, um brasileiro que vive há cinco anos na China, depois de duas décadas de reformas econômicas, o comunismo na China é apenas de fachada; nem mesmo os integrantes do Partido Comunista acreditam na filosofia implantada no país após a revolução de 1949, liderada por Mao Tsé-tung. A China não é mais um país totalitário. Ela vem se abrindo econômica e politicamente. Mas democracia plena ainda é um sonho distante. O estado ainda exerce um controle rígido do regime. A China é uma colcha de retalhos étnica. São 56 etnias, 93% da população pertence a maioria Han, mas o restante tem suas próprias culturas.

E dentro da etnia Han existem grandes diferenças no Norte, no Sul, no Leste e no Oeste do país. Especialistas entendem que se houver uma abertura democrática abrupta, o país vai ser varrido por um tsunami de movimentos separatistas destruindo a unidade da nação. Deng previu que a China só estaria pronta para eleições livres em 2049. Mas já há avanços consideráveis. Por exemplo, não há mais o culto à personalidade. Isso foi abolido por Deng Xiaoping. Muitas estátuas de Mao Tsé-tung foram retiradas das ruas por exemplo. Outra mudança significativa é que os líderes não podem mais se perpetuar no poder. Há na constituição um artigo que impede que os líderes sejam reeleitos por mais de dois mandatos para o mesmo posto. As mudanças econômicas, por sua vez, foram baseadas na premissa: " necessidade de se abrir sem perder controle sobre a população e instituições de Estado".

Foram criadas as Zonas Econômicas Especiais (ZEEs), que receberam o investimento estrangeiro e implantação das indústrias subsidiárias das empresas que resolvessem aderir ao benefício da produção barata em solo chinês sob as precondições especiais do Estado - tal como a associação com empresa estatal chinesa. Inicialmente, mudanças eram testadas nas províncias ou em municípios isoladamente para só então receber implantação gradual (regional, distrital, provincial e nacional) no país.

Em diversos casos, o Comitê Central simplesmente oficializava práticas já criadas e implantadas por autoridades municipais que funcionavam informalmente. Essa abertura atraiu investidores do mundo todo atrás de mão de obra barata culminando com a instalação de milhares de empresas de grande e médio porte que inundaram o planeta de produtos baratos, mudando a economia global e fazendo com que o país crescesse a taxas astronômicas nos últimos 20 anos. Há ainda muitos questionamentos éticos sobre exploração da mão de obra, desrespeito aos direitos humanos e tantos outros, mas apesar de todas as polêmicas, a China honrou o alerta que Napoleão Bonaparte fez mundo: "não acordem a China". A China acordou e parece que não volta a dormir tão cedo.

Helio Monti é superintendente da Eletronorte-Gerência de Obras de MT e Mestre em Economia pela UNB

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