E continua... | Gazeta Digital

Segunda, 29 de janeiro de 2018, 00h00

E continua...

Rosana Leite


Mais uma mulher é covardemente assassinada em Mato Grosso. Irresignado com o final do relacionamento, no município de Nova Ubiratã/MT, C.L. da S. resolve tirar a vida de M.L. dos S.S.

São notícias cotidianas os diversos feminicídios com a mesma motivação, se é que existe pretexto. Uma simples consulta no Google com a descrição "inconformado com o fim do relacionamento", mostrará a quantas andam os feminicídios. Alguns segmentos da imprensa ainda usam o arcaico termo "crime passional", quando o assassinado foi cometido por motivação amorosa. Porém, a marca a ser imprimida é do feminicídio. O sentimento de posse acompanha a vida das mulheres. Quando nascem se tornam propriedade dos pais, e, quando casam, dos maridos. As mulheres possuem "senhores, amos" e, ao quererem desvincular, podem responder com a própria vida.

Keka Werneck, estimada amiga, que a cada episódio de feminicídio se indigna, fazendo questão de expor à sociedade, afirmou: "Stop... Dá vontade de sair gritando na rua...". E esse é o sentimento de quem nada pode fazer. Elas se encontram de pés e mãos atadas. A liberdade em querer sair de um relacionamento amoroso pode ocasionar tragédia.

No dia 25 de janeiro, em uma comunidade rural denominada "Sinopão", onde vivem aproximadamente cinquenta famílias, M., após muitas agressões físicas, foi morta pelo ex-companheiro com tiros de espingarda calibre 32, que a acertou no peito. A vítima, após várias lesões corporais, há mais ou menos três semanas, decidiu pela separação. O feminicida não aceitava o término do relacionamento e tentava demover a mulher para retornar a viverem como marido e mulher. Entretanto, pelo temor, ela se encontrava decidida pela cisão. Segundo uma amiga que presenciou o feminicídio, elas estavam na cozinha de sua casa sentadas conversando, quando o acusado chegou, disparou contra a mulher e saiu. Não houve qualquer chance de defesa. No banco onde a vítima estava, permaneceu, morta.

Esse janeiro tem sido sangrento e triste para Mato Grosso. E.C. dos S. também foi assassinada no dia 17 pelo companheiro quando amamentava o filho do casal de apenas 22 dias. Dia 3 foi o último para a adolescente de 15 anos, K.C.L de M., assassinada pelo namorado C.F.S, em Rondonópolis/MT. R.M. de S., de 45 anos, também foi morta no início deste ano, dia 10, por V.V. da S, que confessou a prática criminosa. O que esses episódios possuem em comum? O inconformismo com o término do relacionamento. Cadê a liberdade? Quando a posse das mulheres deixará de ser realidade?

Há um ano, no réveilon de 2017, um caso de feminicídio marca o Brasil. S.R. de A., inconformado com o fim do relacionamento, invade uma festa de família, assassina a sua ex-companheira, o filho do casal, e mais dez pessoas que se encontravam presentes, em Campinas/SP. Falava o assassino, antes da tragédia, que gostaria de matar o máximo de vadias da família em um mesmo acontecimento.

Até onde vai a sanha em se assassinar mulheres? Homens e mulheres não toleram, há muito, a legítima defesa da honra. O Poder Judiciário se nega a conceder atenuantes e privilégios nesse sentido.

Nos feminicídios narrados, o ciúme seria a "principal causa". Como a mulher se nega a continuar o relacionamento abusivo, a solução para aqueles que costumam resolver os problemas com violência é a prática dos feminicídios. "Refém de portas abertas" é a descrição de várias mulheres para os relacionamentos vivenciados...

Rosana Leite Antunes de Barros é defensora pública estadual.

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