Reestruturação dos empregos | Gazeta Digital

Segunda, 29 de janeiro de 2018, 00h00

Reestruturação dos empregos

Daniel Almeida de Macedo


O futuro do trabalho é uma perspectiva cada vez mais inquietante. Ao lado do desequilíbrio climático e da ameaça de guerras, o futuro do trabalho é uma das maiores preocupações globais da atualidade. O tema, que já havia sido debatido com profundidade em edições anteriores, emerge novamente como prioritário no Fórum Econômico Mundial que teve início na terça-feira, dia 23.01 em Davos, na Suíça.

A obsolescência de algumas funções, isto é, a transformação de sua condição de útil para a categoria de desnecessária, parece ser o ponto central do desafio imposto pela reestruturação dos empregos no mundo, mas essa não é a única questão. O surgimento de produtos tecnologicamente mais avançados e aptos a substituir um conjunto cada vez maior de atividades realizadas pelas pessoas está tornando dispensável o trabalho humano. Pelas estimativas da consultoria McKinsey, somente no Brasil serão cerca de 15 milhões de trabalhadores impactados pela automação de processos produtivos até 2030. Enquanto a quantidade de robôs industriais aumenta a uma taxa de 9% ao ano, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), operários atônitos testemunham a transformação de suas funções em algoritmos computacionais. E isso ocorre na melhor das hipóteses, pois em muitos casos as funções são completamente extintas em razão de sua completa obsolescência, como é o caso de datilógrafos e digitadores.

Até certo ponto essa transformação será positiva, pois irá redirecionar o trabalho humano para atividades que requeiram qualidades verdadeiramente humanas, como a criatividade, o afeto e a capacidade de dialogar, por exemplo. Mas a questão que todos se perguntam é quantas posições profissionais humanas serão geradas nessa transformação do trabalho? É improvável que o aumento de vagas em funções criativas e emocionais seja suficiente para compensar as demissões de quem terá a sua posição suprimida pela tecnologia, especialmente porque apenas um sistema informatizado ou um robô é capaz de substituir dezenas de postos de trabalho ocupados por pessoas. Nas etapas iniciais desse processo de substituição da força de trabalho humana pela mecatrônica, haverá um desequilíbrio nessa equação e é justamente sobre esse dilema que se debruçaram autoridades, empresários e especialistas no Fórum Econômico Mundial deste ano.

Não obstante, como já se sabe, não há soluções simples para o enigma representado pela emergência de novas tecnologias supressoras de mão de obra.

Os serviços que estão facilitando a vida de todos são revolucionários, entram rapidamente em operação e empregam pouca gente. Muitos se lembram da Kodak, a maior empresa de fotografia do mundo, com 120 anos de história entrou em falência em 2012. Foi sendo ultrapassada por inovações que não conseguia acompanhar. Primeiro foi o surgimento das câmeras digitais, depois os aparelhos celulares que acoplaram as câmeras digitais, e, por fim, a conexão on-line dos celulares às redes sociais onde se compartilha e armazena fotos. E assim, nessa sucessão de transformações, a Kodak se tornou retrô, uma empresa associada a uma cultura superada e antiquada. Agora, há um detalhe importante, a Kodak empregava 140 mil funcionários nos anos 1990. O Instagran, uma rede social online de compartilhamento de fotos e vídeos, quando foi vendido ao Facebook por US$ 1 bilhão, possuía apenas 13 funcionários.

As consequências da desordem no mundo do trabalho parecem ser particularmente prejudiciais à população de baixa renda, que exerce funções repetitivas, mais vulneráveis à automação. Nesse sentido, a revolução industrial de hoje poderá agravar a desigualdade que já é assombrosa no mundo. Como não é possível refrear esse movimento histórico, o melhor a se fazer segundo a OIT é capacitar a força de trabalho e transmitir as habilidade e conhecimentos úteis ao processo produtivo nesse novo momento histórico. Competências no campo da matemática e aptidões em linguagem digital são talentos cada vez mais valorizados. Segundo o Fórum Econômico Mundial, a estratégia para se evitar entrar em conflito com essa nova realidade de escassez de postos tradicionais de trabalho é qualificar-se tecnicamente. A crise do emprego talvez resulte na ascensão do empreendedorismo em massa. A era do "fim do emprego" pode ser o prenúncio de uma nova era profissional, caracterizada por mais autonomia e liberdade nas relações de trabalho e emprego.

Daniel Almeida de Macedo é doutor em História Social pela USP e escreve neste espaço às segundas-feiras

Gazeta Digital também está no Facebook, YouTube e Instagram   



Aguarde! Carregando comentários ...


// leia também

Terça, 20 de fevereiro de 2018

00:00 - Inovação e empregabilidade

00:00 - E agora, Pedro?

00:00 - Auxílio-moradia dos juízes

00:00 - Quem será o próximo presidente?

00:00 - Não poupamos

Segunda, 19 de fevereiro de 2018

16:23 - A intervenção federal nas cidades pode ser problema e não solução

16:17 - O Brasil precisa de um choque liberal

00:00 - Economia intangível

00:00 - Riscos on-line

00:00 - Na contramão do desenvolvimento


 ver todas as notícias
Cuiabá, Terça, 20/02/2018
 

Facebook Instagram

Fogo Cruzado
titulo_jornal Terça, 20/02/2018
768bdb65035787436f1bc4ad07df1cf3 anteriores



Indicadores Econômicos

Mais Lidas Enquete

Após 15 anos, Arcanjo deixa a prisão e vai cumprir regime semiaberto




Logo_classifacil









Loja Virtual