Biometria do Abismo | Gazeta Digital

Terça, 30 de janeiro de 2018, 00h00

Biometria do Abismo

Luciana Gaviglia


Quisera que nossa futurista tecnologia fosse ainda mais evoluída, e olha, que avançou milhões de léguas, porém insuficiente para fazer métricas precisas do caráter, ações e intenções. Ah, se tivesse o poder de esquadrinhar verdadeiramente a essência do ser! Hoje empregada no sistema eleitoral brasileiro, a biometria tem a missão de identificar fisicamente o eleitor, que pena! Esquadrinha tão somente os eleitores, que estarrecedor, poderia ir além e aquilatar o âmago de todos aqueles que estão no tabuleiro eleitoral, na ferrenha disputa, entre aqueles que se julgam seres superiores capazes de nos governar rumo ao mundo dos sonhos, ao paraíso da igualdade, com destino a um Brasil sério e justo, do qual só na mais desvairada utopia encontramos.

Ah, se a tal biometria identifica-se o crime do colarinho branco, com todos os requintes sábios empregados para assaltar nossa alma, nosso suor, e o sonho de não apenas sobreviver, mas viver com abundância. Se assim fosse, eu seria otimista em apontar que 20% dos nobres candidatos seriam aprovados pela Bio Biometria que nos resgataria do famigerado apetite do poder e do benefício próprio. Por enquanto, nem na sétima arte ainda vimos esta história, por enquanto. Se fosse realidade, poderíamos de fato constatar o motivo da invenção humana, uma das mais lindas já criadas, a política; sim ela mesma, foi arquitetada por mentes evoluídas que vislumbraram um sistema capaz de permitir o gozo da plenitude humana, harmonia e justiça, que o poder originado dela nos fizesse gerir a coletividade com respeito e igualdade, e não olhando poucos bolsos, mas oportunizando dignidade a todos, sem exceção.

Sendo assim nos resta contemplar com imensa consternação a desvirtuada finalidade política. E aí nos resta mais uma vez concordar com a verdade de Maquiavel, a imortal obra, e o livro de cabeceira de aspirantes e veteranos agentes públicos, "O Príncipe", em um de seus trechos mais famosos, afirma que o que move a política é a luta pela conquista e pela manutenção do poder, e discorre que os fins deveriam justificar os meios. Em meias-palavras era a legitimidade intelectual de nos revelar, ou profetizar, que seríamos usados, manipulados, em prol da coletividade? Claro que não, em prol de poucos.

E que poucos! Afinal nossa nação abriga 207 milhões de brasileiros, o Congresso Nacional representa uma mínima fração perto disso, e ainda assim, Eles nos empurram goela abaixo um podre norteador a seguir, um abismo corruptor sem fim, que vergonha. Antes, os semideuses, revestidos do poder que o parlamento assim confere, não assumem, o que os noticiários nos revelam todos os dias; corrupção, assalto aos cofres públicos, uso indevido de recursos e matança de direitos. Nem cito aqui as Reformas em curso, vou restringir apenas ao meu rico imposto, não é por mim definido o emprego dele, cai direto na conta de não sei quem, para uso de como desejam, para benefício próprio; sejam para cobrir os rombos nas contas públicas, ou para bancar milionárias campanhas políticas, têm que ser caras mesmo, afinal haja publicidade e marqueteiros mágicos para mascararem índoles corrompidas.

Até lá, enquanto as mentes brilhantes da tecnologia não desenvolvem um Bio Scanner, que pudesse fazer valer então aos eleitos a lei do Fiel Depositário, confio o meu voto a eles, porém não cumprindo seu devido e idôneo papel, que se fizessem cumprir sanções; prisão, pagamento justo pelo que foi desvirtuado. Usaria então a mesma teoria empregada em mais um capítulo histórico do nosso Brasil, ao julgar um ex-chefe da nação, o domínio do fato se fez presente no TRF4. Seguiremos o baile desta forma então, vendados como a justiça, porém com a esperança de que um dia nada se oculte; aí sim o abismo da biometria seria um buraco negro sem fim, seria profundo. Já imaginou o tamanho da ficha suja que apareceria na urna eletrônica do Bio Scanner.

Luciana Gaviglia é jornalista

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