Falência da segurança pública | Gazeta Digital

Sexta, 16 de fevereiro de 2018, 00h00

Falência da segurança pública

Juacy da Silva


Há poucos dias, por ocasião da Quarta-feira de Cinzas, dia 14 deste mês de fevereiro de 2018, em uma solenidade que contou com a presença do presidente e secretário-geral da CNNB, da ministra Cármen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal e do Conselho Nacional de Justiça, do presidente da Comissão de Justiça e Paz da CNBB e do Deputado Molon, presidente da Frente Parlamentar de prevenção da violência e pela redução dos homicídios, da Câmara Federal, na sede da CNBB e diversas outras pessoas, em Brasília, foi lançada oficialmente a Campanha da Fraternidade de 2018, cujo tema é "Fraternidade e a Superação da Violência".

Todas as autoridades presentes foram unânimes quanto à importância de, novamente, trazer para a agenda nacional uma discussão mais profunda e não apenas pontual, como geralmente tem ocorrido, sobre a questão da violência, suas causas, consequências e os caminhos que devemos trilhar para que a superação deste problema e desafio nacional possa ser encontrada.

O lançamento da Campanha da Fraternidade coincide com uma onda crescente de violência que se abate sobre o país como um todo, de norte a sul, de leste a oeste, em todos os estados, todas as capitais, regiões metropolitanas, meio rural e áreas urbanas que estão dominadas pelo banditismo ante a omissão ou incompetência de nossos governantes no enfrentamento deste grave problema.

As forças se segurança e de repressão, tanto as polícias civis quanto militares e os organismos de repressão do governo federal, incluindo as Forças Armadas, as polícias Federal e Rodoviária Federal, a Guarda Nacional estão levando um verdadeiro baile, perdendo de dez a zero para o crime organizado, para o novo cangaço e para a corrupção que faz parte e, ao mesmo tempo, alimenta a violência, o tráfico de drogas, de armas e de pessoas e a contravenção.

O Rio de Janeiro é o palco principal onde uma verdadeira guerra civil que já está estabelecida, onde nem mesmo a presença ostensiva das Forças Armadas consegue intimidar os bandidos que dominam praticamente todos os morros, todas as favelas ou comunidades e territórios, fazendo da população humilde, trabalhadora e honesta reféns do crime organizado.

Há poucos dias os grandes jornais estamparam em suas manchetes que bandidos deram ordem para que um centro de treinamento da Marinha, na avenida Brasil, que não fizesse muito barulho quando dos exercícios físicos e bandidos armados subiram no muro da unidade da Marinha e abriram fogo contra as instalações militares. Na verdade, até mesmo as forças de repressão policiais e militares estão ficando a cada dia mais encurraladas.

A situação do Rio de Janeiro praticamente já escapou do controle dos poderes constituídos, razão pela qual há poucas semanas, por diversas vezes, o próprio ministro da Defesa disse, com todas as letras, que a segurança pública, no modelo atualmente existente, está falida.

Durante o Carnaval a bandidagem fez a festa no Rio de Janeiro. Arrastões diários nas praias, nos meios de transporte, nas ruas, avenidas, praças da cidade aterrorizaram não apenas turistas, mas também a população que reside na capital e em outras cidades do interior e da região metropolitana.

Poucos dias antes do Carnaval, por diversas vezes o crime organizado, por iniciativa própria ou durante confronto com forças policiais, fecharam as linhas amarela, vermelha, a avenida Brasil e outras vias estruturais da cidade do Rio de Janeiro, levando o pânico aos motoristas e passageiros de veículos particulares ou coletivos.

Toda esta violência pode ser vista ou ouvida em tempo real pela televisão e pelas redes sociais, onde o som ensurdecedor de fuzis e metralhadores dá a nítida impressão de que a população do Rio de Janeiro, e tantas outras cidades onde o crime organizado já se estabeleceu de fato, está vivendo em áreas de conflitos armados e tiroteios como na Síria, no Iraque ou outros países do Oriente Médio, que vivem em guerras declaradas.

Como enfatizado pelo Presidente da CNBB, não cabe à Igreja e nem à população, desarmada, enfrentar a bandidagem que porta fuzis, metralhadoras, lança granadas e ataca em plena luz do dia, não apenas a população, mas também instalações e as forças da repressão. Cabe sim, ao governo federal e aos governos estaduais e municípios cumprirem seus papéis na manutenção da ordem pública, na garantia da lei e da ordem (GLO) e no combate ao crime organizado.

À sociedade civil, às famílias e igrejas cabe muito mais um trabalho preventivo, educativo, cujos frutos demoram anos ou décadas para que seus efeitos possam ser notados. Se os poderes públicos e a segurança pública estão em processo de falência total, não resta dúvida que o próximo passo será o crime organizado tomar o poder nacional, como já está feito com o sistema prisional, onde quem manda são os presos, dando inclusive ordens para ação de seus comparsas que continuam fora a da cadeia e ditar suas normas e ordens, como atualmente fazem nas favelas do Rio de Janeiro e em várias outras cidades brasileiras.

Estamos na iminência de vermos uma associação entre o crime organizado, a bandidagem comum e a corrupção politica. A união entre o crime organizado e a criminalidade de colarinho branco não vai demorar e aí, sim, estaremos perdidos, com já acontece em diversas países da América Latina e da África. Será este o nosso destino?

Juacy da Silva, professor universitário, aposentado da UFMT, mestre em sociologia, articulista e colaborador de diversos veículos de comunicação. E-mail professor.juacy@yahoo.com.br Blog www.professorjuacy.blogspot.com twitter@profjuacy

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