Crianças e dinheiro | Gazeta Digital

Domingo, 18 de fevereiro de 2018, 00h00

Crianças e dinheiro

Saulo Gouveia


Conta-se que um senhor já idoso e cansado de dirigir suas empresas resolve transferir a presidência para seu filho. Chamou-o e lhe contou a novidade, deixando o primogênito muito feliz. Percebia-se no seu rosto um largo sorriso de contentamento. Mas tem uma condição, disse o pai: - Você terá de buscar um emprego e ganhar os seus primeiros mil reais com seus esforços.

Aaah! Foi o que saiu dos lábios do menino. Como? Trabalhar? Ganhar dinheiro como empregado? "Meu pai está delirando", pensou. Foi contar para a mãe, afinal ela sempre achava uma saída para ele driblar os obstáculos. Ela pensou, pensou e disse: - Filho, seu pai está mesmo maluco, mas vamos resolver isso agora. Vou lhe dar o dinheiro e você diz a ele que ganhou.

O jovem deixou passar um tempo e buscou o pai, dando-lhe o dinheiro, todo contente. A reação do genitor foi inesperada. Dirigindo-se à lareira jogou o dinheiro e deixou queimar, dizendo: - Você pensa que sou idiota? Que vou acreditar nessa história? Vá trabalhar!

É! Foi difícil de aceitar, mas como sair dessa enrascada? Foi quando encontrou o seu tio, que ao saber da história veio logo com uma ideia mágica: - Olha, eu lhe empresto o dinheiro e você faz uns calos nas mãos dizendo que foi fruto do esforço no trabalho.

A reação do pai foi a mesma, pondo o dinheiro para queimar: - Você pensa que sou idiota? Que vou acreditar nessa história? Vá trabalhar!

Não restou saída, foi trabalhar. Depois de muito procurar conseguiu emprego em uma ferrovia. Acontece que era preciso custear as despesas pessoais e para sobrar mil reais levou mais de seis meses.

Finalmente juntou e foi todo contente entregar o fruto do seu labor ao pai. Mas o inesperado aconteceu, a reação foi idêntica, pondo o dinheiro para queimar: - Você pensa que sou idiota? Que vou acreditar nessa história? Vá trabalhar!

Vendo que iria queimar, se não fizesse nada, o rapaz avançou imediatamente e pegou o dinheiro de volta: - ESSE NÃO, EU LUTEI PARA GANHAR! - Ah! Muito bom - disse o genitor - agora você está pronto para comandar as empresas da família, pois já sabe o REAL VALOR DO DINHEIRO.

Os filhos devem começar a lidar com o dinheiro logo cedo, assim evitarão a necessidade da lição de nossa história. Essa educação será mais eficaz com a aplicação da tríade: intelecto, emoção e exemplo.

Uma dica é fazer o orçamento das necessidades do filho e separar aquelas que possam ser pagas por ele mesmo. Deixe de fora apenas as despesas que são comuns a toda a família, como supermercado e moradia. Inclua mais 10% para ele aplicar na poupança. O valor encontrado é a mesada que será entregue todo mês em dia previamente marcado.

Não interfira na gestão financeira dele, apenas fique disponível para responder às dúvidas, prestar assistência e auxiliar nas contas. Se for ainda pequeno e não souber pagar as despesas mais complexas, você pode começar a mesada com apenas a parte do lazer e da poupança. É muito importante que seja um processo natural, sem as famosas lições de moral que não educam, tais como dizer "estou fazendo isso para você ver o quanto custa o dinheiro". Deixe-o enfrentar pequenos dilemas e fazer suas próprias escolhas, inclusive aprender a poupar para investir.

É indispensável ensiná-lo a comprar somente à vista, evitando qualquer tipo de prestações ou empréstimos. Assim ele irá aprender primeiro juntar para depois comprar o que precisa. São necessárias algumas "penalidades" se, por exemplo, ele gastar tudo e não aplicar na poupança. Tire da mesada por uns dois meses os 10% e o valor do lazer. Precisamos ser firmes, sem sermos rudes.

Deixe os filhos participarem das conversas sobre decisões financeiras da família, do orçamento das férias, do automóvel, do lar e outras. Inclua-os positivamente nas ideias para gerar sobras no orçamento e investir.

Por último, o exemplo pessoal dos pais. Não adianta nada falar, ou falar e não ter os hábitos corretos. Teremos, no futuro, adultos mais seguros de si mesmos e esse sentimento fortalece os laços sociais, as posturas e o zelo pelo outro e pelo planeta. Esse é o real valor do dinheiro, vá na frente liderando-os. Pense nisso, mas pense agora!

Saulo Gouveia é consultor financeiro e organizacional, e atua oferecendo novos significados para viver as virtudes em abundância. Articulista de A Gazeta, escreve neste espaço aos domingos. saulogouveia@seubolso.com.br ou www.seubolso.com.br.

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