Transgênicos brasileiros | Gazeta Digital

Domingo, 18 de fevereiro de 2018, 00h00

Transgênicos brasileiros

Hugo Molinari


Não é fácil desenvolver um novo transgênico. De acordo com um estudo inglês, de autoria da consultoria Phillips McDougall, para um produto chegar ao mercado, são necessários, em média, 13 anos de estudos. Este é o período entre a descoberta do gene e a liberação comercial de uma cultivar na qual há um trecho de DNA de outro organismo ou na qual o genoma da própria variedade está editado.

O Brasil comemora 20 anos de transgênicos em 2018 (o primeiro OGM do país foi aprovado em 1998), podemos calcular, para além deste tempo, pelo menos mais dez anos de pesquisa e desenvolvimento. Isso representa trinta anos de transgênicos sem nenhum registro de malefício às saúdes humana e animal ou ao meio ambiente. É bastante coisa. No mínimo, isso confirma a segurança desses produtos, desde o princípio atestada por inúmeros pesquisadores e agências reguladoras.

A biotecnologia é uma atividade que demanda, também, muito investimento. Ainda segundo a Phillips McDougall, um novo transgênico custa, em média, US$ 136 milhões, aproximadamente R$ 400 milhões. Deste total, cerca de 51% são usados para o desenvolvimento do produto, 23% na descoberta do gene e os 26% restantes investidos em testes de biossegurança e no processo de aprovação. O rigor das avaliações pelas quais passam esses produtos torna o trabalho com biotecnologia agrícola uma atividade de risco e custo altos, afinal poucas empresas têm capital suficiente para investir quantias dessa grandeza e esperar mais de dez anos para ter algum retorno, se tudo der certo.

Em nosso país, apesar de todas as dificuldades pelas quais a ciência nacional passa, fomos capazes de desenvolver produtos inovadores e que têm potencial não só de facilitar a vida dos agricultores, mas de fazer o Brasil chegar mais perto dos líderes globais desse mercado. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), por exemplo, foi a primeira empresa pública do mundo a aprovar um OGM. Em 2011, ela conseguiu, na Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), a autorização para a comercialização do feijão GM resistente ao vírus do mosaico dourado, uma doença que devasta as lavouras dessa leguminosa.

A FuturaGene, empresa que foi adquirida pela brasileira Suzano Papel e Celulose S.A. em 2010, obteve a aprovação de um eucalipto transgênico. O primeiro eucalipto GM do mundo tem potencial, por exemplo, de diminuir a área plantada com a cultura, reduzindo a pressão sobre as florestas naturais. O Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), outra empresa nacional, também está na vanguarda da biotecnologia vegetal. Em 2017, a CTNBio aprovou a cana-de-açúcar GM da empresa, uma variedade inovadora que apresenta resistência à broca-da-cana, inseto que causa prejuízos milionários à indústria sucroenergética, fundamental para o Brasil. Esses exemplos mostram que o Brasil pode se tornar um importante player no setor de Biotecnologia. Para isso, entretanto, é essencial que o esforço dos cientistas brasileiros seja reconhecido, tanto nos serviços prestados à CTNBio, por meio de criteriosas análises de biossegurança, quanto nas empresas, liderando pesquisas de ponta que levam a produtos que podem revolucionar a agricultura.

Hugo Molinari é engenheiro agrônomo

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