Economia intangível | Gazeta Digital

Segunda, 19 de fevereiro de 2018, 00h00

Economia intangível

Daniel Almeida de Macedo


Em 1993 o professor austríaco Peter Drucker, considerado o pai da administração moderna, lançou a obra "Sociedade Pós-Capitalista". O livro, que hoje é um clássico, aborda historicamente a passagem de uma sociedade capitalista, cujos recursos principais são o capital, a terra e o trabalho, para uma sociedade que tem o conhecimento como recurso de base. O prognóstico de Drucker sobre uma sociedade em que o recurso econômico básico é o conhecimento utilizado para usos produtivos parece estar se materializando rapidamente, mas com algumas peculiaridades.

O conhecimento transformado em tecnologia, e que antes assumia uma forma corpórea - a roda, o arado ou o motor - atualmente está permanecendo em seu estado incorpóreo, ou seja, já não está mais apresentando uma forma física. Pesquisas e desenvolvimento, softwares, bancos de dados, criações artísticas, projetos e gestão de marcas e processos comerciais são hoje valiosos ativos intangíveis que recebem cada vez mais investimentos. A Apple, por exemplo, a empresa mais valiosa do mundo, não possui virtualmente nenhum ativo físico. Constitui-se em ativos intangíveis que integram ideia e software formando uma marca que cria valor, muito valor. Essa crescente intangibilidade dos produtos, no entanto, pode causar a ampliação da desigualdade e distorcer o funcionamento da economia de mercado. É o que demonstra o novo e badalado livro "Capitalismo sem Capital: a Ascensão da Economia Intangível", de Jonathan Haskel e Stian Westlake, lançado no final do ano passado.

A propriedade de bens intangíveis é completamente diferente do domínio de bens tangíveis. Os autores argumentam que, dentre outros fatores, os ativos intangíveis possuem "escalabilidade", isso significa que um bem intangível pode ser usufruído por uma pessoa sem privar outra de seus benefícios, uma característica denominada pelos economistas de "gênero não-concorrente". Com efeito, não é possível alguém comprar o mesmo ingresso ao cinema que eu estou comprando. Cada um compra o seu. Um mesmo ativo intangível, contudo, pode ser utilizado muitas e muitas vezes por várias pessoas diferentes. Em uma economia em que a escalabilidade é potencializada pela comunicação em rede on-line, algumas empresas se tornam gigantescas rapidamente à custa da devastação da concorrência analógica. Uma vez que empregam pouquíssima mão de obra, essas empresas tem uma imbatível relação custo-benefício, podem reduzir a níveis baixíssimos o valor cobrado pelos bens e serviços prestados e ainda usufruir das vantagens colossais do pioneirismo. Esse raciocínio talvez explique a decisão recente de uma grande universidade de Cuiabá que resolveu demitir cerca de 100 professores para iniciar o processo de mudança de seu modelo de negócios de aulas presenciais, que exigem a contratação de um docente para cada sala de aula, para aulas a distância (EAD), em que um único professor é capaz de ministrar conteúdos para um número quase indeterminado de alunos.

Em economias de mercado a eficiência e a inovação serão sempre diferenciais competitivos. Mas a ascensão de ativos intangíveis como patentes, marcas e softwares não estaria gerando uma crescente discrepância de desempenho entre companhias e aumentando a desigualdade? Há que se considerar, ainda, que os ativos intangíveis são móveis e difíceis de serem tributados. Por todas essas razões as novíssimas transformações da economia exigirão um reexame por parte dos formuladores de políticas públicas, que terão que redefinir marcos regulatórios e estudar formas de mitigar as desigualdades criadas pelos intangíveis, dentre essas, a mais preocupante talvez seja ascensão de empresas superdominantes.

Daniel Almeida de Macedo é doutor em História Social pela USP e escreve neste espaço às segundas-feiras

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