Êxodo venezuelano | Gazeta Digital

Segunda, 26 de fevereiro de 2018, 00h00

Êxodo venezuelano

Daniel Almeida de Macedo


A crise na Venezuela provocada pela catástrofe econômica e humanitária da ditadura do presidente Nicolás Maduro está assumindo aspectos cada vez mais sombrios. Estima-se que mais de 1 milhão de pessoas tenham fugido nos últimos anos da Venezuela para outros países sul-americanos. Milhares de desterrados estão cruzando as fronteiras e adentrando território brasileiro em busca de refúgio. Roraima, a principal porta de entrada dos imigrantes que fogem da fome e do colapso dos serviços públicos no país vizinho, enfrenta há anos o enorme desafio de prestar ações emergenciais aos imigrantes venezuelanos, como proteção social, saúde, educação, alimentação e segurança pública. Hoje, a estrutura assistencial do estado de Roraima também está entrando em colapso.

É como se houvesse uma crise dentro da crise, um transbordamento da decadência da nação venezuelana ao Brasil. A prefeitura de Boa Vista estima que cerca de 40.000 venezuelanos já tenham entrado na cidade, os abrigos estão lotados e os imigrantes estão vivendo nas ruas da cidade. Autoridades municipais de saúde pública já revelaram que a capital de Roraima está sob alerta de um possível surto de sarampo, após uma criança venezuelana de 1 ano ser diagnosticada com a doença. Mesmo diante de tanta precariedade no acolhimento dos estrangeiros, o fluxo de entrada de venezuelanos ao Brasil está crescendo, isso ocorre em razão do contexto cada vez mais dramático na Venezuela, mas também em consequência da imposição pela Colômbia de novas restrições à entrada de refugiados em seu território. A Colômbia é um destino muito procurado pelos venezuelanos, e essa mudança em sua política externa tem aumentando a vinda desses nacionais ao Brasil nos últimos meses. O que se percebe é que êxodo venezuelano está se tornando uma situação cada vez mais grave e complexa.

Em meio à crescente tensão, foi um alento a recente medida provisória assinada pelo governo federal apoiando ações de assistência emergencial para os migrantes venezuelanos. O instrumento que possui força de lei, também prevê ajuda para o deslocamento dos refugiados que quiserem ir para outros estados do Brasil. A interiorização de venezuelanos nesse momento parece ser uma estratégia importante para diminuir a inquietação que tomou conta da sociedade local. Várias ações violentas contra estrangeiros foram registradas nas últimas semanas em Boa Vista. Em um desses episódios, uma menina de 3 anos e seu pai sofreram ferimentos por queimaduras após serem atingidos em um ataque xenofóbico.

Apoiar os venezuelanos que chegam a Roraima e querem procurar oportunidades em outros locais é de fato necessário, pois o mercado de trabalho naquele estado é limitado. Como grande parte dos refugiados tem qualificação profissional e deseja trabalhar, ao articular essa ponte para outras regiões do Brasil, abre-se uma oportunidade interessante para abrandar os efeitos dessa séria crise humanitária. A interiorização deve ser, no entanto, bem planejada e acordada com as cidades que forem receber os venezuelanos, para evitar situações como aquelas verificadas na imigração de haitianos ao Brasil, e inclusive a Cuiabá, há alguns anos. Em seu auge, os migrantes haitianos eram despachados em ônibus para outros estados sem qualquer coordenação com as autoridades dos estados de destino e novamente eram colocados em situação de constrangimento e vulnerabilidade.

O Brasil terá que lidar com a crise humanitária que se expande da Venezuela e decidir proteger verdadeiramente essas pessoas vulneráveis como se fossem brasileiros. Essa é uma postura condizente com a sua estatura geopolítica e suas aspirações de liderança no continente sul-americano, ademais, promover o bem de todos, sem preconceitos de origem ou raça representa um objetivo fundamental da República Federativa do Brasil.

Daniel Almeida de Macedo é doutor em História Social pela USP e escreve neste espaço às segundas-feiras

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