Liberdade de vontade? | Gazeta Digital

Domingo, 04 de março de 2018, 00h00

Liberdade de vontade?

Gonçalo Antunes de Barros Neto


Na introdução de "O Ciclo da Auto-sabotagem", Stanley Rosner relembra fato acontecido com ele em Toronto.

Num fim de tarde, após sair de uma conferência da Associação Americana de Psicologia, refletia, Stanley, sobre as ideias que ali foram discutidas, em especial as novas interpretações do que torna o indivíduo um ser admiravelmente complexo e interessante.

Enquanto aguardava um táxi que o levaria ao aeroporto, também dedicava atenção ao encarregado da portaria. Era animado, abria e fechava as portas aos clientes, dizendo sempre algo para cada um.

E isso o fez refletir: "Eu o observo nessa tarefa repetitiva e fico pensando como ele consegue permanecer tão bem disposto!".

Na sequência, o porteiro chega até ele e, após lhe conseguir um táxi, faz a seguinte afirmação: Eu me pergunto como esses motoristas conseguem. A mesma coisa, dia após dia, dirigir até o aeroporto e voltar, até o aeroporto e voltar. Isto me deixaria louco".

Conclui Stanley que reparar no outro aquilo que não conseguimos perceber em nós mesmos é algo muito comum, como se fizesse parte da natureza humana.

Platão já afirmara haver uma vitória e uma derrota - a maior e a melhor das vitórias, a mais baixa e a pior das derrotas -, que cada homem conquista ou sofre não pelas mãos dos outros, mas pelas próprias mãos.

Mas isso é assim dado que ter consciência do que "sou" não é o mesmo que conhecer a própria consciência. Apesar da imensa dificuldade, mas seria possível ter consciência do que "é" (conhece-te a ti mesmo), mas a consciência, por si só, não pode dar-se a conhecer, pois, na lição de Sartre: toda consciência é consciência de algo; por conseguinte, a consciência não é algo, não pode ser tratada como uma coisa ou como um objeto (por Dardo Scavino).

Aqui parece nascer o sentido da expressão "morte do homem" de Foucault. Não há o sujeito absoluto, livre e universal. O homem está umbilicalmente ligado a contextos históricos e culturais. Há vários sujeitos relativos, que se comunicam tendo em vista a própria diversidade cultural e de ambiente.

Derrida se referiu a isso no "monolinguismo do outro" (idem, Scavino): "Tenho uma só língua, e não é a minha, é a do outro, esse outro que fala em meu nome e me dá sua palavra".

Não se pode ter consciência da consciência. A consciência não é objeto dado a conhecer. O "outro" o é com maior facilidade. E é exatamente por isso que a complexidade humana justifica a dificuldade de autoconsciência, não havendo homem absolutamente livre, sua vontade estará comprometida com o seu "próprio mundo" de crenças e valores.

No dizer de Spinoza os homens creem-se livres porque ignoram suas determinações.

É por aí...

Gonçalo Antunes de Barros Neto escreve aos domingos em A Gazeta (email: antunesdebarros@hotmail.com).

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