As renúncias | Gazeta Digital

Domingo, 04 de março de 2018, 00h00

As renúncias

Lourembergue Alves


A política é o instrumento necessário para se chegar à justiça. Advogava, com razão, Aristóteles. Embora já soubesse que essa atividade poderia se tornar prerrogativa apenas de um pequeno grupo. Isto acontece com o afastamento (renúncia) voluntário ou não da maioria da comunidade dos negócios públicos (não deveria, mas é o que ocorre). E, desse modo, personalizam-se as ações, os partidos e o próprio jogo eleitoral. Desaparecem, assim, as ideias, projetos e programas. Por conta disso, tudo gravita em torno dos atores (é uma pena!). E, consequentemente, a saída ou o recuo de um deles, ainda que de mediana densidade eleitoral, desarruma o cenário que se construía. É o que se verifica com a desistência de se recandidatar do senador licenciado e ministro Blairo Maggi.

Filme antigo e de igual script. As especulações se multiplicam. Os políticos vão de um lado para outro. Ora se mostram dispostos a migrar de partido, ora estão propensos a mirar cargo distinto do antes sonhado. Rearranjos se dão. Possibilidades de alianças são costuradas. Oposicionistas e situacionistas se misturam. Ainda que exista entre eles uma grande cratera. Mesmo que o ideológico nunca seja levado em consideração. Pois alguém de posicionamento nitidamente conservador se associa a siglas supostamente progressistas e/ou socialistas. As cartas se embaralham. Ficam turvas. Quase não identificadas. Muitas delas se passam pelo que não são. A retórica toma o lugar dos fatos. Os nomes se sobrepõem e se enfileiram em trincheiras distintas das que se encontravam antes. As duas vagas ao Senado passam a ter muitos pretendentes. Bem mais, até então, da quantia que almeja chefiar o Executivo estadual, com as siglas se movimentando não em razão das necessidades coletivas, mas pelos interesses individuais e particulares. Por isso, claro, as ausências de projetos de governo, sufocados pelos projetos pessoais.

Daí a corrida desenfreada ao Senado tão logo da saída da disputa pelo ministro da Agricultura. Favorecendo a todos. Inclusive ao deputado Nilson Leitão. Mas em especial ao ex-governador Jayme Campos, que sai da sua condição de coadjuvante para o de maior dos protagonistas. A não recandidatura do ministro Blairo diminui o tamanho do PP nas negociações das chapas para as majoritárias. Por outro lado, a possibilidade de uma aliança fortemente opositora ao governador também desaparece, pois os partidos de médios e pequeno porte tendem a ficar indecisos. O que abre maior chance de formação da coligação governista mais competitiva. E isto, claro, diminui os espaços de crescimento da suposta candidatura do ex-prefeito Mauro Mendes na disputa ao governo. Ex-prefeito que foi o maior perdedor com a renúncia da recandidatura do Blairo Maggi, uma vez que este não mais lhe conduzirá pelas mãos pelo interior do Estado, onde é desconhecido, além de não mais abrir as portas do agronegócio para a sua falada campanha. Embora o ex-prefeito possa contar com as companhias dos irmãos Campos, os quais não estão, há algum tempo, na vitrine-eleitoral (sem cargos), nem têm igual acesso ao do ministro entre os empresários do agronegócio.

Estes não ficarão fora das disputas (até pelos seus interesses). Não é, portanto, por ocaso os interesses recentes do vice-governador Carlos Fávaro e do deputado Adilton Sachetti nas vagas de senador. O que, pelo seu turno, pode mudar os rumos das formações das futuras alianças. Situação atípica. Pelo menos até agora. Pois não se tem exemplo parecido na história política regional, uma vez que sempre foi à briga pela poltrona central do Paiaguás que norteou a formação das alianças para as eleições majoritárias. E, mesmo neste caso, caro (e) leitor, a conversa tão somente sobre os nomes se sobrepõe. Nada com relação às ideias, projetos e programas de governo. Pois supostos candidatos não os possuem, muito menos seus partidos. E isto é gravíssimo. O que obrigará o futuro governante, tanto quanto foram os do passado, a administrar de improviso. O retrato da saúde, por exemplo, será o mesmo do de hoje, que tem sido uma cópia das gestões anteriores. É isto.

Lourembergue Alves é professor e articulista de A Gazeta, escrevendo neste espaço aos domingos. E-mail: lou.alves@uol.com.br.

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