Inglês sem sotaque | Gazeta Digital

Terça, 06 de março de 2018, 00h00

Inglês sem sotaque

Renato de Paiva Pereira


Pintada com capricho na parte de trás de um luxuoso carro importado, leio uma frase sugestiva: "Ora que melhora". Através do vidro noto que há um rosário pendurado no retrovisor interno. Este detalhe (o rosário) me informa que o dono do automóvel não é evangélico, pois os protestantes não costumam usar terços ou rosários durante suas orações. Entretanto essa informação me confunde um pouco, pois sendo o motorista católico como o objeto do retrovisor indica, ele usaria rezar e não orar. Embora os dois verbos indiquem quase o mesmo ato, um é usado pelos católicos, o outro, pelos crentes. Pode ser que o imperativo de orar tenha predominado por exigência da rima.

Mas qual será a mensagem que esse dono de tão vistoso carro quer passar? O mais provável é que queira chamar a atenção para seu Land Rover, afirmando que orando muito conseguiu comprá-lo e que outros poderiam também conseguir, bastando agir como ele.

A frase do imodesto cristão (católico ou crente) parece uma versão mais "elitizada" do "Foi presente de Deus", mais usada nos fiats e chevetes combalidos que nos modernos carros de trezentos mil reais.

Por enquanto vamos deixar rodando pela cidade o homem do carro chique para contar um caso, aparentemente sem relação com este, acontecido no casamento de uma contraparente minha.

Não obstante o casório em questão tenha ocorrido aqui no país e todos os convidados fossem brasileiros, a noiva fez o discurso de saudação em inglês. Explicou para a plateia extasiada com tanta "erudição", que tinha mais facilidade em expressar-se nessa língua. O detalhe é que ela foi criada no interior de Minas e somente na adolescência passou algum tempo nos Estados Unidos, tornando-se um desses raros casos, que a despeito da exposição tardia a novo idioma, criou mais familiaridade com ele que com a língua materna. Um professor presente no evento comentou admirado que ela falava um inglês perfeito sem nenhum sotaque.

Para explicar o comportamento do primeiro caso (o do carro legendado) temos uma palavra que vem a calhar. Trata-se de novo-rico sempre utilizada para referir-se a pessoas que tendo enriquecido rapidamente não tiveram tempo de dar uma envernizada nos modos e por isso vivem cometendo gafes, exibindo grotescamente os bens que possuem.

O que move este novo-rico é a necessidade de ser aceito pelas "elites" e a posse de bens é o documento exigido para ser aceito nos salões da "nobreza". Principalmente porque a maioria dos frequentadores desses salões entrou lá com o mesmo passaporte.

Novo-rico é um tipo antigo na sociedade. Ésquilo, o dramaturgo grego de mais ou menos 500 anos antes de Cristo, colocou na boca de Clitemnestra, na Trilogia de Orestes: "Os novos ricos, no dia seguinte ao de uma colheita inesperada, são insolentes e duríssimos com seus escravos".

Pois é, basta uma "colheita inesperada", uvas ou trigo na antiguidade; soja ou algodão, hoje; ou a posse de um vistoso carro de luxo, para despertar o "novo-riquismo".

Para o segundo caso (o da minha contraparente e similares) sugiro o neologismo "novo-culto", que poderia designar o plebeu que se acha sábio porque fala, sem sotaque, a língua dos "nobres". Aliás, falar inglês sem sotaque é condição indispensável, conforme garante o pensador Roberto Campos, para espião estrangeiro e imigrante clandestino.

A semelhança entre os dois casos é que o inglês dela, inoportunamente exibido, equivale ao brilhante Land Rover com sua estranha legenda.

Renato de Paiva Pereira empresário e escritor

E-mail: renato@hotelgranodara.com.br

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