Câncer: um estigma para a sociedade - 2 | Gazeta Digital

Sexta, 08 de dezembro de 2017, 00h00

Câncer: um estigma para a sociedade - 2

Elias Januário


Prezados leitores, dando continuidade à nossa reflexão iniciada na semana passada, onde tomando como ponto de partida as crônicas publicadas em seu blog "força na peruca" pela atriz Márcia Cabrita, que faleceu de câncer recentemente, aliado à minha caminhada de mais de quatro anos enfrentando a rotina de tratamento de um tipo raro de câncer ósseo, que alterou consideravelmente a trajetória da minha vida e das pessoas que estavam e as que ainda estão à minha volta, que decidi trazer à tona a reflexão sobre a emblemática reação das pessoas com o que consideram "politicamente correto" como forma de se referir e comportar diante de uma pessoa doente e dos desdobramentos de seu tratamento.

É impressionante como a sociedade na qual estamos inseridos, vai estabelecendo padrões sociais de comportamento para quem tem câncer, como se fossemos todos idênticos e, sem perceber, acabamos nos "enquadrando", meio que à força, neste modelo esperado socialmente. Chegamos a ser criticados e censurados porque não estamos sendo otimistas ou mesmo que não estamos lutando com todas as forças pela vida, por não aguentar e reclamar das intermináveis aplicações de injeções, dos inúmeros exames que são feitos semanalmente, de chorar de dor e de medo, quando na verdade somos humanos e não super-heróis, como bem expressou Marcia em suas crônicas antes de falecer.

Obviamente que existem pessoas na sociedade que não compartilham desse quadro a que estou me referindo, que acaba imputando ao doente de câncer a culpa por ter adquirido a doença, por ter perdido a luta contra o câncer, por ter morrido e deixado filhos pequenos, por não ter sido alegre e otimista o suficiente, por não ter tido fé o bastante, e por aí vai - é isso mesmo, uma enorme injustiça para quem já está sendo devastado por uma doença terrível como é o câncer, ainda temos que ouvir esse tipo de colocação. Ninguém que não tenha passado por isso pode imaginar o quanto é cruel quando ouvimos das pessoas essas frases prontas e ditas com frequência.

Enfim, as pessoas que passam por tratamentos contra o câncer, e digo com a propriedade de quem já ouviu muitas vezes esses "clichês", precisam de no mínimo bom senso por parte das pessoas que fazem parte do seu círculo de parentesco e amizade. Pensando nisso, no Blog que mantinha, a atriz Márcia, com um tom de humor e ironia, postou uma lista de termos, palavras que todos nós que temos câncer não merecemos ouvir, e que complemento com algumas que nos últimos quatro anos eu tive que escutar como: "conheço alguém que perdeu a batalha contra o câncer", "aquela doença", "câncer é carma", "você deixou a doença entrar", "a cura está na cabeça", "conheço uma planta milagrosa que cura o câncer", "os efeitos colaterais e as sequelas são o de menos", "não deve nunca reclamar ou chorar", "você tinha que passar por isso", "se precisar de alguma coisa me liga", e uma infinidade de outras frases desse tipo.

Entretanto, existem frases e palavras que são como um bálsamo para quem atravessa uma fase ou trava uma luta há anos contra o câncer, como; "só liguei para você saber que estou pensando em você", "a medicina tem evoluído a cada dia", "posso te ajudar com as despesas", "estou indo fazer companhia para você", "como posso te ajudar", "rezo sempre por você", "você está em meus pensamentos", e tantas outras frases que ditas trazem um alento, porque são exequíveis, tem lastro, emana solidariedade e principalmente coragem diante da finitude da vida.

Não poderia encerrar sem mencionar e agradecer as equipes da área de oncologia como pesquisadores, médicos, enfermeiros e técnicos, que fizeram opção por esse trabalho, difícil, muito difícil, porque lida cotidianamente com a dor, com procedimentos invasivos, com diagnósticos bons e outros horríveis, com o sofrimento dos familiares, com uma doença estigmatizada pela dor, sofrimento, medo e a morte. Nosso abraço de agradecimento a todos que atuaram e atuam na área oncológica.

Elias Januário é educador, antropólogo e historiador, escreve às sextas-feiras em A Gazeta. E-mail: eliasjanuario@terra.com.br

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