Não queremos flor, queremos respeito e mais amor | Gazeta Digital

Quinta, 08 de março de 2018, 13h55

Luciana Oliveira

Não queremos flor, queremos respeito e mais amor

Luciana Oliveira


Durante o ano inteiro a mulher sofre diversos tipos de violência, mas a sociedade cria a ilusão de que num único dia (08 de março) a mulher é respeitada, valorizada e reverenciada. São cafés da manhã especiais, homenagens institucionais ou botões de rosas ofertados para ressaltar, ao mesmo tempo, a “força e a delicadeza” de cada mulher. Mas como ficam todos os outros dias quando somos tocadas e desrespeitadas no transporte público, assediadas sexual e moralmente no trabalho? Quantas meninas e mulheres não estão sendo estupradas agora, enquanto você lê este artigo? Quantas de nós já não foram abusadas na escola; no congregação religiosa onde nos levaram para aprender a orar; no local onde fomos praticar um esporte para “cuidar do corpo”; dentro de casa, por aqueles a quem devotamos nosso mais singelo amor?

Importante esclarecer e atualizar que a Associação Brasileira de Psicologia da Saúde (ABPSA) propôs a substituição do emprego Abuso Sexual para OFENSA SEXUAL, uma vez que o emprego do vernáculo Abuso, “libera o uso indevido de corpos infantis e adolescentes para os adultos”.

Abuso significa excesso de uso, mas pessoas e corpos não estão disponíveis para uso ou utilização. É preciso sair do abuso para entrar na ambientação da Ofensa, “que é a da dor física e emocional, o grande flagelo da violência sexual”, algo devastador que pode comprometer toda uma vida. Além deste fato, em discussão jurídica, nos Crimes contra a Honra e Contra os Costumes, a palavra utilizada é “ofendido” e não abusado.

Nesta semana a imprensa divulgou o resultado de uma pesquisa realizada em 27 países, entrevistando 20 mil pessoas (homens e mulheres), que responderam a seguinte pergunta: qual é o problema mais importante enfrentado pelas mulheres? Segundo a Ong Internacional Women´s Day/ Instituto Ipsos, 32% responderam assédio sexual; 28% violência sexual, seguido de 21% destacando a violência física.

No Brasil os números superam o dado mundial, aqui a violência sexual é o maior problema para 47% dos entrevistados, seguido de assédio sexual (38%) e violência física com 28%. Ressaltando que o assédio não deixa de ser um tipo de violência.

Já a percepção da violência sexual em nosso país indica que 55% dos entrevistados acreditam que as mulheres já foram vítimas de violência por parte de seus companheiros, apesar dos dados oficiais apontarem o número de 31% das mulheres, este valor já é altíssimo, mas pode sim estar subestimado. Mesmo com a lei Maria da Penha e o incentivo às mulheres para que denunciem a violência, sabemos que nem todas chegam a denunciar os crimes pelos quais são vitimadas, principalmente porque a violência acontece dentro de casa, onde ainda é muito forte o machismo e há os casos de dependência econômica.

Levantamento do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA), no ano passado, mostra que 70% das vítimas de estupro no Brasil são crianças e adolescentes.

Então, homens e mulheres, o que temos a comemorar neste dia 08 de março? Temos sim uma imensa luta, que é diária e precisa de todos para ser vencida. Quantas mulheres e meninas não estão agora sentindo dor, medo, angústia, vergonha e culpa?

Violência e assédio são crimes cruéis e perversos, principalmente para crianças. Quantas depressivas nossa sociedade ainda vai produzir? Quantas mulheres não estão na prostituição porque vitimadas em casa e, inclusive, rejeitadas pelas próprias mães, que também são vítimas, foram obrigadas a sair de casa se vendo sem apoio e acolhimento? Muitas das mulheres que se transformaram em números e hoje são estatística, representam uma massa de corpos drogados, transtornados, prostituídos ou assexuados, humilhados pelo poder do machismo, do individualismo, da falta de empatia e da covardia da sociedade.

Os números da pesquisa mostram que a sociedade brasileira sabe que mais da metade das mulheres corre perigo, mas diante das meninas ofendidas diariamente, pais se negam a ver e agir, negligenciam suas dores, quando não são eles os ofensores; são os colegas de trabalhos que não querem se envolver, assim como a comunidade escolar; os vizinhos que se calam diante dos gritos na casa ao lado. E o inferno vai se perpetuando!

Mulheres e homens envolvam-se, a sociedade é construída por cada um de nós, é urgente preparar melhor nossos filhos para conseguirem viver na sociedade que se configura. Fala-se tanto no caos da saúde pública, contudo, mais do que a escancarada falta de saúde física, nossa sociedade padece muito mais de saúde mental e emocional. Até quando a mulher brasileira vai ser vista apenas como mais um corpo? Somos pessoas, humanas, sobrecarregadas pelo peso de uma sociedade adoentada.

Discute-se tanto a conquista de uma sociedade mais justa. Esse MAIS já pressupõe que sempre haverá injustiça, pois que ai há uma gradação: mais ou menos. Precisamos de uma sociedade justa de fato, equilibrada, preparada para as diferenças, fraterna e não somente tolerante.

Neste dia internacional das mulheres não se limitem a dar flores, mostrem respeito a suas esposas, filhas, mães, irmãs, sobrinhas, netas, colegas de trabalho, vizinhas... a mudança social começa dentro de casa. Saiba ouvir, apoiar, amar verdadeiramente a mulher/ a criança que está a sua frente, em todos os 365 dias que formam um ano.

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