Ritual de bater água | Gazeta Digital

Sexta, 09 de março de 2018, 00h00

Ritual de bater água

Elias Januário


Entre os inúmeros rituais praticados pelos índios da etnia Xavante, neste texto vamos relatar uma parte do treinamento dos homens na fase de adolescentes, que é realizado dentro das águas dos córregos e riachos localizados próximos das aldeias.

Cada adolescente Xavante do sexo masculino deve necessariamente realizar esse rito de passagem, condição que o eleva socialmente na organização desse povo, ou seja, após cumprir todas as atividades num determinado tempo, o rapaz deixa de ser adolescente e passa para a condição social de homem adulto. Todo esse processo é acompanhado por um padrinho, sendo nessa fase a pessoa mais importante para o adolescente, a quem ele deve obedecer durante todas as etapas.

Um dos momentos importantes consiste no que os indígenas chamam de "bater água", onde os adolescentes passam o dia todo de pé dentro do córrego, abaixando e levantando, com a água pela cintura, fazendo movimentos com os braços e as mãos. Para que este ritual aconteça, os padrinhos devem preparar o local, limpando o córrego retirando galhos, pedaços de madeira e pedra que possam atrapalhar a movimentação dos rapazes, ao mesmo tempo em que fazem uma pequena barragem no local para que a água fique nas condições ideais.

Também é atribuição dos padrinhos a realização da pintura corporal, que é a mesma para todos, bem como o ensinamento dos cantos que são entoados durante todo o tempo em que os adolescentes estão dentro da água.

Este ritual dura três semanas, sendo que ao meio-dia um irmão ou primo leva comida, que após alimentarem retornam para água. No final da tarde o padrinho retira o seu afilhado e leva ele para a maloca dos pais onde é alimentado, retornando pouco tempo depois para bater água até por volta da meia-noite, ocasião em que são liberados para dormir na casa dos adolescentes, voltando ao amanhecer para o córrego ou rio, para continuar com o ritual de bater água.

Ao término das três semanas os adolescentes encerram a etapa de atividades dentro da água, dando início à preparação da coroação e posteriormente a furação da orelha.

A coroação consiste no momento em que os padrinhos pintam com tinta de urucum, carvão e jenipapo os seus afilhados, colocando gravatas feitas de algodão no pescoço, além de enfeitar a cabeça do adolescente com penas de arara, entre outras aves. Falando baixo próximo ao ouvido do jovem, o padrinho transmite os últimos conselhos e ensinamentos fundamentais na vida de um homem Xavante.

Ao amanhecer é realizada a furação da orelha com um objeto pontiagudo, feito de osso de onça pintada ou parda, sendo em seguida colocado um pedaço de madeira, que chamam de toco, no local perfurado, encerrando assim esse ritual de bater água.

Elias Januário é educador, antropólogo e historiador, escreve às sextas-feiras em A Gazeta. E-mail: eliasjanuario@terra.com.br

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