200 milhões de "juízes" | Gazeta Digital

Quinta, 17 de maio de 2018, 01h30

200 milhões de "juízes"

Helio Monti


Já fomos 100 milhões de técnicos de futebol. Infelizmente hoje estamos nos transformando em 200 milhões de juízes de direito, bem pior. É impressionante como o brasileiro em geral, salvo as exceções, nos últimos tempos, vestiu a toga de juiz e passou a julgar a tudo a todos de acordo com suas convicções e seus interesses. E aí não é uma parcela de alguma facção, partido político ou segmento social. É toda uma nação a julgar e condenar ou inocentar. A esmagadora maioria tem nenhum conhecimento jurídico e nem dos autos que compõe os processos, se é que já existe o processo, mas se acha no direito de julgar. E julgam com uma "certeza" e com uma "competência" de fazer inveja.

Às vezes nem é preciso uma simples notícia de jornal ou um mero email a levantar suspeitas sobre determinado cidadão. Por muito menos, lá vêm os milhões de "juízes" julgando, condenando e maldizendo, sem nenhuma base jurídica, sem nenhum conhecimento, sem o devido processo legal e sem dar o universal direito de defesa. Daí, já consolidado o modelo mental da condenação, o cidadão passa divulgar sua "sentença" a todos que pode alcançar. Normalmente, qual é a premissa da condenação? Só se condena os inimigos, aqueles que estão fora do espectro de interesses do "juiz". Para os amigos ou simpáticos, também há julgamento e o mesmo disparate, mas, ao contrário dos inimigos, são todos inocentados.

Com a massificação da internet e das redes sociais, os "juízes" têm como alcançar milhares de pessoas e se põe a espalhar inverdades, ranço e ódio no atacado. Isso tem um efeito contaminante gigantesco. De acordo com os princípios de Joseph Goebbels, marqueteiro do nazismo de Hitler, uma mentira, repetida mil vezes, vira verdade. Foi assim que o nazismo ascendeu ao poder na Alemanha e causou a maior desgraça que a humanidade já viveu. E mais, se os juízes verdadeiros e as cortes de justiça, a quem cabe, por força constitucional, julgar todos acusados, dão uma sentença contrária à convicção dos "juízes" do povo, lá vem esculhambação e desacato. Se julgam favoravelmente à convicção do "juiz" lá vem elogios e loas.

Isto é a total ausência de ética, de isonomia e respeito aos princípios democráticos. Isso é sectarismo, é violência contra as leis. E onde leis não são respeitadas é o caos que impera. Aqueles que se sentem, hoje, no direito de julgar indevidamente, amanhã poderão ser vítimas da mesma brutalidade. O cidadão pode até entender que a justiça não tem funcionado a contento. Mas o caminho para mudar a situação é o voto. A solução é eleger cidadãos de bem que possam propor novos rumos para um país abalado e dividido pela revanche e pela intolerância. A solução não está na violência ou na verborragia inconsequente. A solução não está no ódio do qual milhões estão inoculados e cegos.

Uma sociedade que se imagina civilizada deve achar caminhos de convivência pacífica e ordeira. É da democracia discordar, divergir, convencer e ser convencido, mas sempre com tolerância, dentro das regras e das leis. O caminho da violência não tem prosperado nas últimas décadas. Os fatos têm mostrado que esse tempo está ficando para trás na medida em que as pessoas estão cada vez mais esclarecidas e bem informadas. Na pancadaria não se convence mais ninguém. Só se faz piorar as coisas e dividir a sociedade.

Nenhum país pode ser vencedor com um povo dividido e beligerante. É tempo de saber conviver com os diferentes, respeitar as decisões da maioria e, se é minoria, lutar democraticamente para que seus lamentos sejam ouvidos e seus anseios se transformem em realidade ou estaremos voltando a tempos medievais e ingressando numa era sombria e sinistra onde vale tudo e quem tem mais bala no revólver é que determina o que é certo ou errado.

Helio Monti é superintendente da Eletronorte-Gerência de Obras de MT e Mestre em Economia pela UNB

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