Viva; A Vida É uma Festa | Gazeta Digital

Quinta, 04 de janeiro de 2018, 10h28

Crítica de cinema

Viva; A Vida É uma Festa

Observatório do Cinema


Viva: A Vida É uma Festa é a aposta da Pixar para a temporada de premiações americanas, mais do que isso, significa a busca por um título que saia do lugar comum das simples sequências, caso de Carros 3 e Procurando Dory, além do pouco falado Bom Dinossauro. Com isso, há claramente aqui um filme que almeja em diversos sentidos retomar o posto da Pixar como um nome que remete à criatividade dentro da indústria, algo que pareceu ter chegado a seu ápice com seu Divertida Mente, mas já conquistado com a trilogia Toy Story, Up – Altas Expectativas e Wall-E. Viva: A Vida É uma Festa é claramente uma tentativa de fazer mais um filme que entre nesse ótimo patamar da produtora.

Passado num vilarejo mexicano focado nas festividades dos dias dos mortos, uma das mais famosas tradições daquele país. Viva: A Vida É uma Festa conta a história de Miguel, pertencente a uma famosa família de sapateiros, todavia o garoto não deseja seguir os passos dos restantes, almejando ser um grande músico, o grande problema é que a música foi banida de sua família, quando a sua tataravó foi abandonada por um homem que desejava seguir sua carreira, deixando um trauma eterno naquele seio familiar. Miguel, desprezando as tradições e sua própria família, acaba parando no mundo dos mortos e busca por seu antepassado músico, que ele acredita ser o cantor mais famoso do México.

Os desejos da criatividade estão a todo o momento nessa história que já foi vista de algumas outras formas, mas que a Pixar tenta diferenciar-se por seu trabalho estético e por suas várias ideias. Como a introdução que explica a história da família que se dissolveu por causa da música através de imagens vistas através de panos de rendas num varal. Uma introdução que sintetiza questões narrativas, mas tenta passar isso através de uma forma pouco óbvia. Assim como a construção do mundo dos mortos, que tenta trabalhar com a ideia de um México do passado e extremamente colorido, uma espécie de exaltação desse sentimento que a morte é realmente uma festa.

Repleto de luzes e cores, aquele outro mundo tenta não ser apenas fruto de um surrealismo local, como esses aspectos técnicos remetem, mas tentam fazer uma conexão com o mundo real. Algo que de alguma maneira sempre está nos filmes da Pixar, onde as gags e piadas estão justamente em deslocar acontecimentos humanos para um mundo outro, ou seja, mostrar a burocracia no mundo dos mortos, a polícia de lá, a imigração quando podem passar para o mundo vivo, ou quando precisam declarar suas oferendas para regressar ao seu mundo e assim por diante. Coisas que funcionam como elemento de humor, mas fazem parte de um antigo procedimento que a Pixar já fez.

Viva: A Vida É uma Festa, dessa forma, é um filme que a todo o momento vive nessa relação entre se mostrar criativo, mas ainda estar claramente associado a uma fase de recentes de filmes bastante comuns. Essas duas pontas se equilibram e também se materializam através do roteiro do filme. E talvez esse seja o ponto mais alto do novo filme da Pixar, que aqui propõe uma aula de narrativa clássica, bem amarrada, que conta bem sua história e prende a atenção de seu público. Como já dito, a premissa é algo já visto, mas o roteiro trata isso com bastante segurança, uma história concisa que sempre gira em torno dessa relação da família e da música, o filme começa com a separação de um homem e uma mulher e de uma família com o elemento musical, e isso vai ser o que será resolvido. Tudo no filme abriga esse principal elemento, tomando forma na figura do protagonista, que revela esse dilema. Não há no filme grandes subtramas, ou fatos que tirem a tenção daquilo que é essencial. A resolução do conflito do garoto é chave para todos os questionamentos, uma forma exemplar de sintetizar em uma figura uma gama de características e informações.

O exemplar roteiro assinado Matthew Aldrich e Adrian Molina faz um ótimo de jogo de pista e consequência, mostrando sempre como uma ação está conectada a outra, e ainda que algumas revelações sejam um tanto quanto óbvias elas funcionam para manter o público atento e participante daquilo que se vê, proporcionando uma ótima relação entre espectador e a trama. É esse forte pacto que faz com que o filme possa investir em muitas cenas que funcionam propositadamente como uma novela, com a direção de Lee Unkirch e Adrian Molina homenageando o estilo mais popular no México, algo que funciona sem soar fora do tom, justamente por existir essa boa relação entre texto e filme.

Mas o que mais funciona nessa relação entre imagem e texto é realmente o terceiro e último ato, onde tudo se vira para um grande clímax emocional, onde os conflitos e paixões de uma família vêm a tona, mostrando qual a verdadeira força daquele conto sobre vida após a morte, onde uma eternidade pode ser necessárias para que erros possam um dia serem perdoados. A relação entre aqueles dois mundos e o forte pacto do roteiro com o espectador fazem desse momento algo extremamente sublime.

Viva: A Vida É uma Festa foge e supera os limites das mais recentes produções da Pixar por conseguir revelar essa força sentimental, fazendo com que sua narrativa não seja só um pretexto para construir cenas e sequências criativas, mas por fazer com que sua narrativa tenha um significado. Talvez acreditar naquele mundo dos mortos é acreditar que um dia grandes traumas serão resolvidos, uma mensagem que só a Pixar poderia passar numa animação.

 

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