Clube vê mulheres como cifrão, e não como torcedoras, afirma associação | Gazeta Digital

Quinta, 08 de março de 2018, 09h52

'Mulheres de Arquibancada'

Clube vê mulheres como cifrão, e não como torcedoras, afirma associação


R7

Embora seja o esporte mais popular do Brasil, o futebol parece não ter chegado ainda à fórmula ideal para atender a toda população.

Assédios das mais variadas maneiras, estruturas falhas, revistas policiais constrangedoras e truculentas, entre outros problemas, são algumas das queixas das torcedoras que criaram o Movimento Mulheres de Arquibancada, que, nesta quinta-feira (8), completa um ano.

“O nosso país é muito machista. Como o futebol é predominantemente dominado pelos homens, isso [o machismo] fica ainda pior nos estádios”, diz Penélope Toledo, uma das fundadoras do grupo.

Penélope e Kiti Abreu, também responsável pela criação do movimento, falaram ao R7 sobre sua causa, situações frequentemente enfrentadas nos estádios, as queixas de torcedoras por todo o país e também sobre o 1º encontro regional do grupo, que ocorrerá no domingo, em São João do Meriti, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. O primeiro encontro nacional ocorreu no Museu do Pacaembu, em junho do ano passado, com presença de mais de 300 pessoas.

Como é ser mulher nos estádios?

Penélope: Existem muitos efeitos do machismo na vida da mulher nos estádios. Fácil não é, mas entendemos que lá é nosso lugar. O movimento é isso. Batemos na tecla que não estamos lá, nós somos de lá.

Kiti: É bem difícil. O machismo ainda se faz presente. Tem muita luta para tornar a arquibancada um ambiente mais igualitário. É um pouco complicado, mas a gente passa por cima dessas dificuldades para apoiar o clube que a gente ama e defender nossa causa.

Que tipo de situações vocês já passaram?

Kiti: Em Minas, num Atlético x Flamengo, estávamos em duas mulheres apenas para entrar na arquibancada. Na hora da revista, a policial me revistou, levantou minha blusa e top, deixando meu peito à mostra. Chegou até a colocar a mão por dentro da minha calcinha. Foi constrangedor.

Penélope: Na Arena [Corinthians], um cara estava atrás de mim, no mesmo degrau, tentando tirar proveito. Eu reclamei e ele disse que era frescura minha. As pessoas ainda o protegeram.

Aí eu sugeri que ele ficasse no meu lugar com um cara atrás dele, assim como ele estava, e na hora ele se irritou e perguntou se eu estava louca. É um ponto importante esse: a homofobia é um braço do machismo. O homem tem que ser o machão.

E tem mais alguns exemplos: quando sai um gol, algum cara desconhecido vem abraçar a gente e tenta se aproveitar, muitos também nos questionam sobre fatos aleatórios do futebol só por sermos mulheres, há os gritos que muitas vezes são machistas... Além disso, ainda existem alguns homens que falam abertamente que futebol não é lugar para mulher.

O machismo ainda tem força nesse meio?

Penélope: Sim. Vejo [o machismo] como uma construção cultural. Existe o machismo ideológico, de forma consciente, e o reproduzido, o mais comum, quando as pessoas reproduzem o comportamento sem mesmo perceberem. Inclusive, muitas mulheres são machistas também.

Tivemos o 1º Encontro Nacional no ano passado, no Museu do Futebol, no Pacaembu, com mais de 300 torcedoras. Levamos alguns homens de [torcidas] organizadas, entre presidentes e diretores, e percebemos que muitos assuntos eram novidades para eles.

Coisas que nós [mulheres] vemos como machismo eles entendiam como tradição. Depois da conversa, passaram a entender melhor o que temos a dizer. Isso mostra que a discussão ainda não chegou a todos.

Como veem a forma de os clubes lidarem com essa questão?

Kiti: Falta é o apoio dos clubes. Alguns estão fazendo agora campanhas femininas, mas fazem se aproveitando dessas datas. E, na maioria das vezes, para ganhar dinheiro. Nos enxergam como um cifrão, como consumidoras, e não como torcedoras.

Penélope: Quando chega o Dia da Mulher, eles fazem algo. Mas depois morre. Seriam mais louváveis as ações se fosse uma política permanente. Incentivar de verdade e pensar na mulher como torcedora presente, e não como essa mulher bonitinha.

O uniforme feminino, por exemplo, muitas vezes é rosa, e não nas cores dos clubes. E tem alguns que nem tem a versão feminina. Não tem sentido isso."

Para as torcedoras, a estrutura dos estádios é boa? Os fraldários ainda são um incômodo?

Kiti: "Tem muitos estádios com banheiros com banheiros femininos muito ruins e nada adaptados para as mulheres. É uma condição precária em diversos locais."

Penélope: "Além do problema dos banheiros, os banheiros com fraldários são só os femininos. Ou seja, partem de um pressuposto de que quem cuida de filhos é a mulher, de que o homem não precisa ter esse trabalho. Muitas vezes, inclusive, o homem vai só com o filho e tem que pedir para uma desconhecida ajudá-lo no banheiro feminino com o fraldário.

Outra luta nossa é para ter uma delegacia especializada ou ao menos policiais preparados para ocorrências que as mulheres sofrem por questões de gênero."

A ascensão das arenas nos últimos anos ajudou ou atrapalhou?

Penélope: "Não ajudou. Tem mais mulher, mas é um tipo de específico de mulher, que a mulher que a televisão filma. O que as arenas fizeram foi trocar o público. Elitizar, embranquecer. E isso não reflete na realidade do nosso país. Como um todo, o que piora é a elitização, a segregação."

Se sente acolhida na sua torcida organizada?

Kiti: "Particularmente, sim. Sou da Raça Rubro-Negra, do Flamengo. Me sinto acolhida e respeitada. Mas, não é uma realidade da maioria. Conversando com torcedoras de outras cidades, descobrimos que algumas não podem participar da diretoria das torcidas e nem ao menos tremular as bandeiras."

Penélope: "Já participei mais de organizadas e fui a primeira mulher a integrar a Fiel Rio de Janeiro (torcida do Corinthians no Estado fluminense). Participei da direção lá, e era bem acolhida. Hoje, participo menos."

 

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