Mais de mil pessoas em Goiânia ainda têm rotina ligada ao césio 137 | Gazeta Digital

Quarta, 13 de setembro de 2017, 08h42

Brasil

Mais de mil pessoas em Goiânia ainda têm rotina ligada ao césio 137


Estadao

Em 13 de setembro de 1987, os catadores de lixo Roberto dos Santos e Wagner Mota encontraram nos escombros do que era o Instituto Goiano de Radioterapia uma cápsula com césio 137. Tentaram abri-la, pensando em vender o chumbo e os metais. Foi o que fizeram. No ferro-velho, os funcionários se encantaram com o pó de brilho intenso. Parentes e amigos passaram a visitar o local para ver a descoberta. Quem teve contato direto com a substância adoeceu – e quatro morreram nas semanas seguintes.

Trinta anos depois, o acidente radiológico continua presente para as 1.141 pessoas que ainda hoje são monitoradas, segundo o Centro de Assistência aos Radioacidentados (Cara), da Secretaria de Saúde de Goiás. São pessoas contaminadas por objetos que haviam sido infectados pela substância, que estavam próximos dos focos de césio 137 ou, ainda, que trabalharam no caso, como policiais e bombeiros, profissionais de saúde e garis, além dos filhos e netos.

Foto: Wildes Barbosa / Estadão

'A gente nunca esquecerá’, afirma Ferreira, sobrevivente do acidente com a cápsula radioativa e césio 137, em 1987, que sofre com radiodermatite. 

Desde 1987, 95 pessoas que faziam parte do grupo de monitorados morreram, segundo o Cara. Ainda de acordo com o centro, análises realizadas não encontraram relação entre as causas das mortes e o acidente radioativo. “Após vários estudos com os radioacidentados concluímos que não houve grandes repercussões (em saúde), como casos de câncer, ou seja, não houve mudança no padrão epidemiológico”, afirmou o atual secretário de Saúde de Goiás, Leonardo Vilela, que em 1987 era estudante de Medicina.

Entre os monitorados, 12 mortes tiveram causas externas (arma ou trânsito) e em 11 não foi identificado o motivo. As causas de morte mais recorrentes entre os monitorados foi doença pulmonar (16), no aparelho circulatório (8), septicemia (8) e câncer (6). Outras 16 pessoas desenvolveram diferentes tipos de câncer. Estudo realizado pelo Cara não apontou, porém, relação entre o surgimento das doenças e a radiação.

Não houve registros de doenças genéticas nos filhos e netos relacionadas à radiação, segundo a Secretaria de Saúde. O risco de abortos e más-formações, por exemplo, foi monitorado até 1989, com foco na fase inicial do acidente, quando havia quatro gestantes expostas a doses altas de radiação. “O monitoramento reprodutivo revelou a inexistência de casos de abortamento espontâneo ou más-formações congênitas nas gestações em curso, durante ou imediatamente após o acidente”, informou o Cara.

Na pele e na memória
A herança de dor, temor de doenças, perdas de parentes e amigos e ressentimento “a gente nunca esquecerá”, afirma Odesson Alves Ferreira, de 62 anos, que teve contato direto com o césio e traz na mão o sinal da queimadura radioativa, a radiodermatite.

Motorista de ônibus na época do acidente – e do aplicativo Uber atualmente –, Ferreira lista as perdas: de imediato, morreram a cunhada e a sobrinha; poucos anos depois, dois irmãos e vários amigos. Vítimas “reconhecidas (pelo governo) ou não”, conta. Também guarda na memória os dias de isolamento e o período em que as pessoas culpavam umas às outras.

Outra voz que insiste em não deixar cair no esquecimento os problemas é Sueli Lina Moraes, presidente da Associação das Vítimas do Césio 137, com 1,2 mil filiados. Até hoje moradora da região mais afetada, o Setor Aeroporto, ela faz uma caminhada lenta entre as casas do bairro, em busca de relatos de casos de câncer entre os moradores. Alguns conviveram com aparelhos de medição radioativa em casa por mais de dez anos, mas nunca foram entrevistadas sobre o estado de saúde.

Sueli escuta tudo e anota em um mapa manuscrito há 13 anos. “A gente faz o que pode. Se fizeram alguma pesquisa aqui, esqueceram de falar com toda essa gente”, ironiza. De vez em quando, encaminha informações à Promotoria do Cidadão, que atuou em favor das vítimas. Fazendo o percurso com Sueli, é possível encontrar outras vítimas não reconhecidas, como a balconista Rosângela da Silva, de 49 anos, que perdeu a mãe, Eurípedes Justina, e a irmã Maria Mercedes, ambas vítimas de câncer. A irmã foi vítima de câncer de pulmão e a mãe, de linfoma.

A casa da família foi interditada na época por causa da contaminação na região. Violada, a cápsula passou pela calçada na rua onde moravam e seguiu para a quadra seguinte, onde o aparelho foi aberto.

Há 13 anos, o “mapa” de Sueli tinha 18 portadores de algum tipo de câncer, moradores desde 1987 em ruas no entorno da quadra mais atingida. “Hoje temos 22 casos só em duas destas ruas”, observa, ciente de que nem todos os tipos da doença têm relação com a radiação.

 

Gazeta Digital também está no Facebook, YouTube e Instagram   



Aguarde! Carregando comentários ...


// matérias relacionadas

Domingo, 19 de novembro de 2017

09:25 - Um mês após tiroteio em escola, adolescente tenta retomar a vida

Quinta, 27 de julho de 2017

08:51 - Seis presos são mortos e oito fogem de presídio durante rebelião em Goiás

Segunda, 24 de julho de 2017

09:11 - Criança e adolescente morrem em GO após carro entrar em canavial em chamas

Sexta, 07 de julho de 2017

11:12 - Polícia prende grupo que vendia gabaritos de vestibulares de Medicina

Terça, 23 de maio de 2017

08:36 - Mãe e padrasto matam filho, lançam corpo no mato e denunciam sequestro

Sexta, 12 de maio de 2017

08:58 - Estudante agredido por capitão da PM recebe alta de hospital em Goiás

Segunda, 17 de abril de 2017

08:36 - Morrem outros três bebês dos quíntuplos nascidos em Goiânia

Segunda, 27 de março de 2017

11:17 - Com superlotação, hospital de Goiás tem duas mortes

Quarta, 22 de fevereiro de 2017

09:07 - Polícia deflagra Operação Hicsos contra roubo de cargas de alto valor

Terça, 06 de dezembro de 2016

10:20 - Pai de 16 anos é suspeito de agredir filho de 8 meses


// leia também

Domingo, 19 de novembro de 2017

09:14 - Doenças crônicas como diabetes aumentam risco de pneumonia

Sábado, 18 de novembro de 2017

15:30 - Inep libera conteúdo de videoprovas em libras do Enem 2017

09:37 - Palmeiras deve ter as saídas de Egídio e Róger Guedes nesta janela

09:26 - Número de pessoas com planos de saúde no Brasil cresceu em outubro

09:15 - Dois homens são mortos pelo Exército no Rio

Sexta, 17 de novembro de 2017

20:32 - Alexandre Frota processa plano de saúde para custear implante de prótese no pênis

14:22 - Ex-dono da Gol tem pena de 13 anos por homicídio

13:57 - STJ mantém Jerominho da 'Liga da Justiça' em presídio de segurança máxima

09:23 - Operação Enigma procura 30 do tráfico internacional

09:03 - Árvore de Coxinha é o presente que faltava para o seu Natal


 veja mais
Cuiabá, Segunda, 20/11/2017
 

Facebook Instagram

Fogo Cruzado
titulo_jornal Segunda, 20/11/2017
C4f32a23995d24db0f5269f57ef9b491 anteriores



Indicadores Econômicos

Mais Lidas Enquete

O que você vai fazer com o 13º salário?




Logo_classifacil









Loja Virtual