12.06.2006 | 03h00
Encontra-se no prelo um livro imperdível, de autoria de um ícone da história da resistência democrática no Brasil. Vem de tempos imemoriais, por certo bem antes de Ramsés II, a evidência de que a História é escrita pelos vencedores. Torna-se necessário, porém, definir o sentido de vitória e, em seguida, identificar os verdadeiros vitoriosos.
"A Caixa Preta do CGT" não constitui apenas mais um relato dos acontecimentos de 1964. É a própria História, sobreposta a depoimentos anteriores e ilusórios, alguns até canhestros porque versões foram apresentadas pelos que se consideraram vitoriosos num primeiro momento, mas, quarenta anos depois, surgem como derrotados.
O lendário comandante Mello Bastos, de prodigiosa memória e escudado em conversas com outros participantes daqueles idos, desfaz versões erodidas pela implacável natureza das coisas. Por exemplo: durante décadas os pretensos vitoriosos proclamaram que o golpe militar deveu-se à iminência da decretação da República Sindicalista Brasileira, pelo presidente João Goulart. Fica demonstrada a falência da afirmação. O máximo que se arquitetava era a convocação de Assembléia Constituinte, proposta endossada por Leonel Brizola e sindicalistas.
Outra balela tornada verdade, ainda que agora precária, foi a da submissão do Comando Geral dos Trabalhadores ao comunismo. Havia comunistas, é claro, entre seus dirigentes, mas nem de longe Luiz Carlos Prestes dominava o movimento sindical. Apesar de ter dito, às vésperas do movimento armado, que os comunistas já estavam no poder, faltando-lhes o governo.
Mais uma versão desfeita pelo texto de Mello Bastos é de que os responsáveis por 64 apenas reagiram a golpe engendrado de cima para baixo. Eles conspiravam antes da saída das tropas dos quartéis, criando empecilhos ao desenvolvimento de um programa singelo, simplesmente reformista, jamais revolucionário. Pretendiam manter o poder como setor reacionário do pensamento e da economia, tanto nacional quanto internacionalmente.
São preciosas as observações do autor a respeito da organização do CGT, assim como os depoimentos de quantos ainda puderam opinar, começando por Hércules Correia e passando por Neiva Moreira, Almino Afonso, pelos brigadeiros Márcio Leal Coqueiro e Rui Moreira Lima, por Waldir Pires e outros mais.
O célebre comício do dia 13 de março, na Central do Brasil, é intermitentemente lembrado ao longo de diversos capítulos, uma festa transformada em tragédia. Lembro-me daquela noite em que, repórter de "O Globo", participando da cobertura, já noite alta retornei à redação, ali perto. Vinha contagiado pelos discursos de Arraes, Brizola, Badger Silveira, Jango e até de um jovem desbocado, então presidente da UNE, José Serra, que havia chamado de gorila o ex-ministro da Guerra, general Amaury Kruel. Além, é claro, dos líderes sindicais. Em minha ingenuidade, assobiando a Internacional, cheguei à esquina da rua de Santana com Presidente Vargas. O jornal ficava logo ali. Custei a perceber que no imenso edifício de apartamentos populares, naquela confluência, as luzes elétricas estavam quase todas apagadas. Na maioria das janelas, sobressaíam apenas velas acesas. Imaginei uma pane local no sistema de distribuição de energia, mas não era nada disso. O então governador Carlos Lacerda, expressão maior das forças anti-Jango, recomendara aquele tipo de protesto, evidência de que a marcha para as reformas não seria tão pacífica.
Nota-se no relato do comandante Mello Bastos, mesmo nas entrelinhas, uma certa dose de ceticismo, não só diante do que o governo Goulart deixou de fazer, mas, num salto para o futuro, uma frustração atual, relativa ao governo Lula. Referindo-se "às utopias que se foram pelo ralo", naquela época, ele acrescenta: "e que continuam indo..." Quem quiser que entenda, em especial depois, quando o atual presidente é maliciosamente rotulado de "ex-combativo líder sindical".
Quanto a Jango, penitenciam-se agora o autor e um de seus companheiros de fé, Hércules Correia: "Aqui e acolá apertamos demais, talvez tenha sido esse o caso de 64. Apertamos demais o governo aliado e ele estourou, não tinha como resolver..." Detalhes significativos dos fatos da época entremeiam considerações de ordem teórica. Não sabíamos que o presidente João Goulart não queria ir e estava com medo de morrer, no comício do dia 13, temeroso do mal cardíaco que sofria e, mais ainda, da existência de atiradores da reação no alto do prédio da Central do Brasil. Ignorávamos o mote de que o comício foi chamado "das lavadeiras", porque de um lado posicionavam-se tanques do Exército, pretensos defensores da legalidade, e de outro, no palanque e na multidão de 200 mil pessoas, os "trouxas".
O CGT ficou contra a pretensão de Leonel Brizola, de ser escolhido ministro da Fazenda no governo formado logo após o restabelecimento do presidencialismo. Participou a cúpula sindical, também, da derrubada do primeiro-ministro nomeado, Auro de Moura Andrade. (Continua).
Carlos Chagas é jornalista em Brasília e escreve em A Gazeta às segundas-feiras
Publicidade
Publicidade
Milho Disponível
R$ 66,90
0,75%
Algodão
R$ 164,95
1,41%
Boi à vista
R$ 285,25
0,14%
Soja Disponível
R$ 153,20
1,06%
Publicidade
Publicidade
O Grupo Gazeta reúne veículos de comunicação em Mato Grosso. Foi fundado em 1990 com o lançamento de A Gazeta, jornal de maior circulação e influência no Estado. Integram o Grupo as emissoras Gazeta FM, FM Alta Floresta, FM Barra do Garças, FM Poxoréu, Cultura FM, Vila Real FM, TV Vila Real 10.1, TV Pantanal 22.1, o Instituto de Pesquisa Gazeta Dados e o Portal Gazeta Digital.
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem a devida citação da fonte.